Diário de Bordo



Passa o tempo a correr e em paragens para nos orientarmos e saber onde estamos, aproveitamos para pensar e fazer um pequeno balanço sobre o estado do “Ser”.
Notei que no último ano, nada escrevi sobre “SIDA”. Sobre sidodependência também nada.
Acho mesmo que nunca escrevi nada sobre “Sidodependência”. A palavra até nem existia antes de eu a escrever. Terei de a explicar, porque ela define uma patologia presente em infectados e não infectados pelo VIH.
Poetas, escritores, filósofos e pensadores, por vezes utilizam palavras novas. Palavras que sem estarem nos dicionários e com significados múltiplos, têm uma abrangência que vai muito além do valor verbal que lhes é dado. ______________ traços contínuos também falam, assim como palavras que não são escritas.
Com eles aprendi algumas coisas. Uma delas foi aprender a escrever não escrevendo. Aqui e ali tomo um apontamento, tão importantes são as palavras não escritas.

Voltando à descrição do que é um Sidodependente, (eu fui um deles) é complicado explicar o que é. Uma definição poderá ser: Individuo em que o seu universo é a SIDA ou o medo dela, e deixa de ter uma vida própria dita normal. A SIDA é um campo magnético que prende e em cuja órbita giram todos aqueles que se deixaram prender a esse campo gravitacional.
O sidodependente poderá até nem estar infectado, in vivo, pelo vírus. Vive o medo e esse medo bloqueia todo o seu pensamento. Faz testes e mais testes, todos de resultado negativo, mas o fantasma de estar infectado vive em si. Tem a mente infectada por um clone imolecular do vírus do medo.
Outro tipo de sidodependentes, são aqueles que procuram toda a informação, todos os progressos científicos, na procura da solução final que é a erradicação do vírus do corpo humano. Muitos deles superam em conhecimento sobre tratamentos os próprios médicos.

A cura desta patologia, da qual penso ter-me livrado não é fácil. Poderia estar envolvido no estudo da conferência de Viena, que acabou de decorrer, mas acompanhei-a ao largo. Atento mas ausente. Tenho a praia também. Tenho almoços com amigos e algumas saídas. Tenho árvores frondosas e bancos de jardins, onde em silêncio leio livros que me são vida.
A VIHDA, é triste demais e dolorosa. Vivida em conjunto com a VIDA, poderá ser aquilo que nós quisermos que seja.

É preciso ouvirmos cânticos de júbilo no ar, ouvir o cântico dos pássaros, sentir o massajar de brisas frescas no rosto. Sentir a paz e o amor que tantas vezes nos falta.
Basta ter um passaporte que nos permita passar as fronteiras entre o inferno e o céu, para estarmos onde quisermos. Sem ele, estamos num deserto onde os sinais de vida são ossadas calcinadas pelo tempo, que jazem sobre areias douradas.
Hoje falei sobre sida em meu vihver. Falei da cura da sidodependência e de estar curado.
Não refiro as recaídas, onde o meu consumo se resume. Entro e saio livremente, sendo que estou a maior parte do tempo fora.

Agora vou para a praia. Depois almoço uma comida tipicamente portuguesa, dormirei a sesta e lá para a tardinha vou namorar. Talvez dar longos passeios à beira-rio sentindo a brisa fresca da tarde. Posso passar pelo muro mítico, olhar os flamingos ali tão perto. Rever os amores do passado e os de hoje. Parar a vida em pensamento e fazer o balanço entre a coluna do deve e do haver.
A vida planeada ao segundo, alheia aos acidentes de percurso. Preciso viver o momento.
Vivendo-o, resume tudo o que me é vida.

4 comentários:

Maria Dias disse...

É bom aportar em algum lugar para arrumar os pensamentos e refletir. Vc É uma pessoa linda e especial e está fazendo falta por aqui.

Beijo e espero q esteja bem.

Maria

Angelus disse...

Para além da beleza de cada parágrafo em que dás várias lições de vida de um só sopro, realças tão fortemente o espírito de quem sabe viver na plenitude. É isto que dá prazer ler, é isto que enche.

Abraço grande Raul

São disse...

Estupenda lição de Vida!
Espero que alie a toria à prática...sem recaídas.

Espero também que nessa nova e conquistada maneira de viever, haja tempo para passar pelos blogues amigos.

Uma boa semana.

Fatyly disse...

Imensamente belo e abrangente e parabéns por esta lição de vida.

Um abraço