Pensamentos Altos


Durante anos aconteceu-me constantemente ter pensamentos “sonoros” e embaraçava-me perante o riso das pessoas ou quando me chamavam a atenção por estar a falar sozinho.
Os problemas, os sonhos e os diálogos eram vividos em monólogo com alguém imaginário ou real, por vezes tão intensamente que conseguia ver os ambientes e lugares em que se desenrolavam. Confesso que não apreciava nada ser apanhado em flagrante pelo que organizei uma estratégia de defesa em que atabalhoadamente começava a cantar para disfarçar esta característica. A maior frustração até nem era o que os outros pudessem pensar, mas sim o facto de cortarem a minha vivência em algo que era tantas vezes agradável.


Penso ter perdido um pouco esta capacidade de pensar falando. Ou porque a transferi para a escrita ou porque desenvolvi um mecanismo de defesa para não me sentir ridículo. É pena. Estou a pensar em começar a treinar de novo. Parece ser a nova moda com o desenvolvimento da tecnologia que permite pelo menos disfarçar o embaraço: hoje encontram-se nas ruas pessoas a falar sozinhas ou a dançar sem música e ninguém lhes chama malucos. São os efeitos de uma governação que de tão desastrosa põe toda a gente a exteriorizar para quem quiser ouvir os seus sentires. O livre-trânsito ou licença para a prática desta actividade sem o riso de terceiros resume-se a usar um par de auriculares ligados a um telemóvel, Ipod ou leitor de MP3 e toda a gente acha normalíssimo.

A minha próxima aquisição será assim o gravador digital com várias funções. A inspiração surge tantas vezes em momentos inesperados em que a falta de caneta e papel para registar pensamentos faz com que se dissipem. Regozijem-se agora os que falam sozinhos. A liberdade de sermos nós chegou. Com um auricular à vista, ninguém cai no ridículo.

12 comentários:

sideny disse...
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Ana Martins disse...

Engraçado Raul nunca tinha pensado nisto assim desta maneira, mas é que o Raul tem toda a razão.

Beijinhos,
Ana Martins

Odele Souza disse...

Pois é amigo. Antes eu até me sentia constrangida quando me pagavam falando sozinha. Hoje já não sinto qualquer constrangimento. É nao é falar sozinha, é como você diz: Pensar alto.

E a idéia de ter um gravador sempre à mão, é bem legal, para registrar os pensamentos. Sejam eles altos ou não.

Beijos!

Fragmentos Betty Martins disse...

.________querido Raul




um gravador faz um_____jeitão!


de facto as pessoas olham para nós_______com um aaaaaaaaar!!!


.mas o que importa - é que não se "perde" os pensamentos.inspiração:=)





______________///







beijO______ternO

São disse...

Achei piada a essa dos pensamentos sonoros.

O grave é as pessoas ficarem a saber da nossa vida, acho.

Um bom fim de semana.

Ângela Coelho disse...

Raul! Obrigada pela visita ao meu blog. Voltes sempre que tiveres vontade.
Às vezes eu me pego pensando alto e me assusto. Mas também é verdade que cada vez mais estão aparecendo pessoas cantando ou rindo, creio que é uma maneira de desopilarem.
Beijos no teu coração.

Diogo disse...

Força! Dê asas a esse génio.

Chegámos a uma época em que cada um pode ter um jornal, uma editora de música ou um mini-hollywood caseiro. E é este futuro.

Deusa Odoyá disse...

Olá meu amigo.
Nunca me preocupei em falar alto os meus pensamnetos.
Pois muitas das vezes estou extravazando meus maus pensamentos.
Um post engraçado.
Parabéns pela escolha.
Beijinhs doces, meu amigo.
Fique na paz.
Regina Coeli.

Lilith disse...
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MARIA disse...

Raúl, que post delicioso este, sempre irreprensivelmente bem escrito e estruturado.
Pode dizer-se que o Raúl pensa ALTO, pensa BEM e transmite o seu pensamento ainda MELHOR !
Tenho andado um tanto ausente dos blogs, mas trago o sidadania sempre presente.
Sobre ele falo quando tenho que conversar sobre hiv com os meus miúdos, com os amigos. Recomendo a leitura do espaço em geral e do Raúl falo quase com a pretensão e o orgulho de quem conheça, pela amizade, um ser humano realmente muito especial, EXTRAORDINÁRIO.
Penso sempre em vós com um carinho muito amigo e verdadeiro.

Um beijinho ( ao Raul e ao Paulo )

Maria

Fatyly disse...

Ah rapaz tu nem imaginas as gargalhadas que dei, pois nunca me preocupei de ser apelidada do quer que seja e sem auriculares e outras tangas (não tenho nada disso), continuo a dar voz ao meu pensamento. Sempre vi gente a falar sózinha e nunca apelidei de "maluco", porque para mim "maluco" é aquele que não encontra escape para o que lhe vai na alma.

E falar a conduzir? é o máximo dos máximos e a estrada torna-se menos monótona e alma fica mais leve hehehehehe

Uma beijoca

Lilith disse...
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