Parvoíces de um escritor


Porque escrevo e porque escrevo essencialmente sobre SIDA? Comecei a escrever num site dedicado exclusivamente a esta problemática e que era frequentado por inúmeros seropositivos que ali retratavam as suas dores conforme cada um as sentia. Por vezes saíam as minhas próprias dores para o texto e ao mesmo tempo existia a necessidade sentida de ajudar aqueles que estavam mais em baixo quando o desespero lhes assolava nas mentes.

Com o advento do “Sidadania” este propósito manteve-se e continua bem vivo mas a ajuda, a maior parte das vezes está na troca de emails daqueles que se nos dirigem e com os quais por vezes nos encontramos e falamos. É missão, é partilha entre iguais, é o passar de conhecimentos sobre a doença, é o desmistificar dos medos e trazê-los de novo à vida. É o combate ao estigma e o preenchimento de uma lacuna alimentada pelos medos em relação à doença.

Ironicamente aconteceu que a grande maioria dos nossos leitores não se encontra infectada pelo HIV. Muitos nem têm parentes ou pessoas próximas infectadas. Mas começaram a entender melhor a doença e muitos deles aproximaram-se de pessoas infectadas. Nalguns casos, desenvolveram-se paixões entre seres discordantes à infecção, algo impensável antes de absorverem a informação aqui deixada.
A escrita quando praticada regularmente torna-se num vicio. Tornei-me num escrito-dependente, sem dar por isso. Adicto por natureza não me importo com esta condição em que somo mais um vício do qual não me quero ver livre em contradição a outros que quero deixar.

Não tendo um estilo literário definido, procuro encontrar em autores diversos uma amálgama que defina o estilo através do qual me venha a definir.
Considero o espaço dos blogues o lugar ideal para curtos ensaios de estilos, como se fosse um viveiro de escritores e onde tantos e tantos valores da nossa literatura se revelam.

Finalmente tornei-me num blogueiro. Um blogueiro sidoso, que importa? É a minha condição revelada. A doença é parte integrante da minha vida e dos meus sentires. E porque essa mesma vida pulsa em mim e existe para além da SIDA, escreverei sobre sentires e olhares para o mundo em que vivo sem que os escritos tenham obrigatoriamente que se relacionar com a doença embora aqui e ali se revele essa condição. Sem outra pretensão que não seja a de matar o vício da escrita, vou escrevendo.

Espero que gostem desta alquimia de um “escrevedor” a quem falta coragem para publicar muitos dos textos sobre sentires e olhares da vihda, arrumados num baú.

Beijos e abraços
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13 comentários:

Odele Souza disse...

Querido Raul,

Escrever é mesmo um gostoso vício. E se podemos passar experiências que possam ajudar outras pessoas através do que escrevemos, tanto melhor, pois estaremos unindo o útil ao agradável.Tenho aprendido muito com teus escritos. Através do que escreves posso ver um ser humano lindo que me cativou pela coragem de usar a doença que te aflige, como um trampolim para levar informações preciosas sobre a SIDA a tantas pessoas e por isso só temos que te agradecer.

Um forte e carinhoso abraço.

Dr. Mento disse...

E ainda bem que ganhaste esse vício. Mais do que usares este espaço para divagações literárias, tens optado por fazer deste blogue um espaço de verdadeira informação, com textos que nos deixam a pensar sobre um tema sobre o qual há ainda demasiadas ideias pré-concebidas.

Com esse teu vício, prestaste um verdadeiro serviço público, de informação e esclarecimento.

Muito obrigado por tudo o que nos tens ensinado.

M. disse...

E vais continuar a soltar tuas letras ao mundo, aqui e lá fora, aguarda-te sempre algo que te preenche as horas todas até ao estampido final, e enquanto morder a vontade de exteriorizar, escreverás como se fizesse parte do teu respirar, de um fio curto da tua existência. A tua rota permanece aqui à disposição em qualquer janela, desde despojos do passado a prosas cantadas. Tem sangue e proezas, fendas e vidros partidos, algures um archote olímpico apagado e até tem música. E aqui onde comunicam tantos desconhecidos e mestres na arte do verbo haverá quem se sinta beijado, quem se depare com um amparo inesperado, quem revele segredos subentendidos e se reconheça em sonhos quase iguais..

O vício vem quando se perde a batalha contra a palavra. De vez em quando podes ficar vazio mas as palavras têm os sete tempos de um gato: podem destruir-se, desprezar-se, atropelar-se, dilacerar-se à facada e regressam sempre compostas, de rosto lavado e um sorriso parvo. Perderás sempre esta batalha contra a palavra. Apenas esta, porque à outra bem maior, nunca te dês por vencido.

E dentro de alguns anos, encontrar-se-ão algures verbos de força extraordinária, criados com sentires em potência máxima a que nunca foi dada a ver a luz do dia acabando simplesmente arrumados no baú. Como mitos enclausurados nas profundas catacumbas do pensamento.
Quem os desvendar, contemplará abismado todos os cantos das palavras cheias de brilho marcadas com cicatrizes enormes. Mas serão valiosos, por conterem as provas da tua existência. De que estiveste e do que foste. Por vezes, todo o Verbo vale a pena, por isto.

Beijo.

Fatyly disse...

Parvoíces? vim parar aos teus/vossos blogues porque:

1ª.- adoro ler e trocar opiniões
2º.- tudo o que tens escrito, inicialmente e como dizes direccionado a "um público infectado" mas igualmente visitado por que não está infectado.
3º.- e assim sendo, como mera visitante nem te passa pela cabeça o que aprendi contigo e com quem participa, quer comentando quer postando, porque consegues ser um ser humano corajoso de usar "o revés da vida" como testemunho e como se consegue vencer barreiras da descriminação, de como lidar com a doença ou com alguém próximo que a tenha, etc. etc.

Sempre disse que escrevias lindamente e de uma forma simples e deixo-te um enorme abraço para que continues o "Sidadania" da forma que entenderes, mas para mim nada como falarmos na primeira pessoa, não me refiro apenas ao "bicharoco" mas a vivências pessoais e deves ter histórias de vida gratificantes:)

Diogo disse...

Bom texto meu caro!

elvira carvalho disse...

Mas não devia faltar a coragem.
Porque o livro seria igualmente importante. Afinal há tanta gente que não tem net. E até tanta gente que não sabe mexer num pc.
Um abraço e uma boa semana

Biby disse...

Caro Raul!
Escrever é um vicio que todos os portugueses deveriam ter.
Eu pessoalmente aprecio a tua escrita, simples, directa e esclarecedora!
Beijinhos
BIBY
PS- O gato da foto é teu?

pico minha ilha disse...

Obrigada por tua visita em meu blog.Escrever faz bem, mas escreve também das tuas emoções, dos teu sentires, escreve de tudo um pouco pois como mesmo dizes nem toda a gente é infectado com o virus e hoje já há muita informação sobre a doença.Para apoio e outras coisas existem os mails.Um livro , acho que sim.Porque não?
Vai um abraço duma picarota

Nela disse...

Raul, e porque não fazeres um blog só para a escrita chamemos-lhe "literária"? Mantinhas este blog com a sua importante característica de serviço público formativo/informativo e espaço de partilha de doentes com Sida ou sem doença, mas interessados na temática e criavas outro espaço que seria o teu espaço de escrita sem "obrigações" mesmo aquelas que fazes de coração, mas que criam responsabilidade. Um espaço mais "boémio"... mais livre e mais libertador.

Maria João disse...

E que bem que escreves, Raul!
A escrita não é mais do que a harmoniosa composição de palavras, traduzindo esse pulsar de vida que frevilha no pensamento. O estilo e a forma desenham o poder criativo, o objectivo por detrás da alma e dos sentires.
Adoro ler o que escreves, como escreves e sobre o que escreves. Faço parte dos teus leitores mais recentes, mas não menos conhecedor da pessoa magnífica que revelas.
Quanto de nós revelamos nas linhas e nas entrelinhas do que escrevemos.
Aplaudo o teu objectivo primeiro na criação deste blogue.. há tanto ainda por fazer, meu amigo!
Mas escreve, escreve sempre o que te ditar a alma, algo cresce e enriquece dentro de nós quanto te lemos, algo enriquece dentro de ti quando partilhas!

Um beijinho grande

Crystal disse...

Apenas um beijo, para que saibas que eu também te leio, e aprecio.

Ana Martins disse...

Caro Raul,
Conheci o seu blogue ainda à pouco tempo, mas devo dizer que me agrada muito a forma como escreve e toda a informação que passa aos leitores.

Revela ser uma pessoa sincera, consciente e amiga.

Bem-Haja!

Beijinhos,
Ana Martins

Isabel-F. disse...

Oi Raul,

Bem dito o dia que os nossos caminhos se cruzaram ...
não só aprendi bastante mais sobre a SIDA, de que pouco conhecia ...
como, contigo, aprendi a ser mais "gente" ...
é bom podermos ajudar os outros ... seja de que modo for ... com as nossas experiências ...
ou mesmo até só com um "olá" que possa transmitir carinho ...

em ti encontrei tudo isto ...
e só tenho a dizer-te OBRIGADA ... ou KANIMANBO, como se diz na Terra onde nasci.

beijinhos e a minha amizade
isabel