TESTEMUNHO


Pensei muito sobre qual seria a melhor forma de descrever a minha experiência e acabei por chegar à conclusão que seria melhor, simplesmente… descrevê-la…

Há cerca de 10 meses o meu marido disse-me que era HIV POSITIVO. A princípio, reagi como se não tivesse ouvido bem a frase… mas à medida que me apercebi da veracidade da situação, naturalmente que a reacção foi de pânico. Pode parecer egoísmo da minha parte mas o meu primeiro pensamento foi “Também estou infectada?”. Não me preocupei com ele, com a família, nada… simplesmente comigo, se poderia ou não estar infectada. Depois veio o desespero, o choro, a angustia e a revolta que muitas pessoas infelizmente conhecem…
Não entendia como é que aquilo poderia acontecer-me a mim, que nunca tinha tido os tão falados “comportamentos de risco”… Não queria morrer de SIDA. De tudo o resto não me importava morrer, mas de Sida, não!

Até hoje preferi não pensar na origem daquela doença, porque ela estaria ligada a uma traição.

Ao inicio, pensei que íamos ambos morrer dentro de 2 ou 3 anos… Tinha uma atitude paranóica com a limpeza da casa e da roupa do meu marido.
Enquanto o meu marido, a quem já estava confirmada a doença, lutava no seu dia-a-dia contra o stress e a depressão, trabalhava normalmente, alimentava-se perfeitamente bem, eu, pelo contrario, quase cedi… Emagreci imenso, houve dias que não conseguia parar de chorar e nem mesmo trabalhar…
Pode parecer ridículo agora, mas cheguei a ponderar uma vida de abstinência sexual.

Curiosamente, nunca ponderei deixar o meu marido…nem culpabilizá-lo pela situação.
Com o passar dos meses e após vários testes ao HIV, para meu sossego e alivio, até agora, estou negativa.

"Não obstante sermos ambos profissionais de saúde, chegámos à conclusão que éramos ignorantes na questão da SIDA… "

Entretanto, o meu marido iniciou o tratamento. Passou por muito stress, embora não o tenha demonstrado. Os primeiros seis meses foram difíceis porque estávamos na expectativa de que algo pudesse não correr bem. Felizmente, passada esta primeira etapa, os CD4 estão a subir bem e tem uma carga viral indetectável. Foi um grande alívio para nós…
No entanto, continua religiosamente o tratamento, tem também um especial cuidado com a alimentação para que seja o mais saudável possível. Recentemente também iniciou exercício físico com acompanhamento e de actividade moderada, no qual eu o acompanho para que se sinta mais motivado. Desta forma esta a encarar a vida e a situação de seropositivo, com muito mais optimismo. Resta-nos rezar e esperar que tudo continue a correr bem.

A nossa vida sexual retomou a normalidade, dentro do que é possível, mantendo todas as precauções. Por vezes sentimo-nos um pouco frustrados porque não sabemos se poderemos ter filhos… ou se a esperança de vida dele e mesmo a minha, se me seroconverter, nos permite ter um filho… apesar de todas as novas alternativas para ajudar os seropositivos a conceber, ou mesmo a adopção, é algo que nos preocupa muito.

Durante toda esta situação, que agora não me assusta tanto, passamos por muitos momentos difíceis, os quais não consigo descrever com a intensidade que realmente tiveram. Não obstante sermos ambos profissionais de saúde, chegámos a conclusão que éramos ignorantes na questão da SIDA… Por isso, essa falta de conhecimento levou ao desespero e mesmo á aquisição da doença, porque se tivesse existido a prevenção adequada que se resume quase ao simples uso do preservativo, certamente não teríamos passado por tudo isto e o meu marido não estaria infectado.

Quero agradecer ao SIDADANIA, porque foi através dele que obtive muita informação, e principalmente, ao Raul, que tanto me ajudou e continua a ajudar nesta batalha.
(Identidade não revelada a pedido da autora do testemunho)

19 comentários:

Projecto Luz disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Nela disse...

Raul, vim aqui para dar conhecimento de uma notícia sobre a viagem do papa (minúscula propositada) a África e às suas declarações sobre o uso do preservativo. Deparei-me com este testemunho (que, aliás, tem tudo a ver) e só quero expressar a minha admiração pelo que li. Este sim (se é que é relevante para o caso) verdadeiramente cristão.

Eta Mulher Corajosa!

alex disse...

Amigo
Raul
Maravilhoso este testemunho
de solidariedade ,amor, compreensão
carinho e cumplicidade entre um casal
obrigado por existires e partilhares.
bjos

Fatyly disse...

Respeito em absoluto o anonimato e gostei de ler o testemunho, embora ao ler e reler me tenha suscitado duas pequenas dúvidas, que Raul se puderes explica-me:

"Por vezes sentimo-nos um pouco frustrados porque não sabemos se poderemos ter filhos… ou se a esperança de vida dele e mesmo a minha, se me seroconverter, nos permite ter um filho…"

"se me seroconverter"??????

- para se ter um filho não existem métodos aplicados aos espermatozóides e ou óvulos de forma a irradicar o virús e depois introduzidos no útero? Ou só depois é que se fazem os tratamentos para que a criança não nasça seropositiva?
- e se o acto de "seroconverter" é aquilo de que falas num dos posts ou num dos muitos comentários, que o amor faz com que o que não esteja infectado passe a estar?

Os testemunhos são sempre uma mais valia numa medida de prevenção, não só para quem está infectado, mas também para quem não está de forma a aprendermos e a termos mais conhecimentos para sabermos lidar, ajudar, em vez de descriminar.
Mesmo sendo "profissionais de saúde" só prova que a descriminação por parte de alguns...é pura ignorância e talvez, aliás quero acreditar que "não o fazem por mal, mas por medo".

Beijocas

sideny disse...

Raul

Para mim este post esta um bocado confuso.

Sendo um casal que trabalha na area de saude, decerto não estavam as escuras.

quanto a uma gravidez, devem saber que podem sim, ter uma criança normal existe a lavagem de esperma, além de cuidados durante a gravidez e o parto.
Como é que ela ficou seronegativa, nao percebo?
beijocas

Arnaldo Reis Trindade disse...

Amigo Raul, gostei do testemunho, fiquei meio assustado quando a mulher disse que estava às cegas quanto a SIDA mesmo trabalhando na área de saude mas mesmo assim, creio eu que não seja o lugar onde a pessoa trabalha que influi no que ela sabe ou não da SIDA ou se ela vai se cuidar ou não pra não contrair o vírus, creio que o fato de não se achar em "grupos de risco" é que as pessoas deixam de se cuidar e acabam entrando nestes tais grupos.

Abraço

M. disse...

faz-me pensar até que ponto seremos ignorantes na questão da sida. há mais de 20 anos que é aconselhado o preservativo como prevenção e se um profissional de saúde se descuidou (não necesariamente por traição) não foi por ignorância mas por pensar que só acontece aos outros. falo por mim que tenho a mania de não usar luvas e manipulando produtos biológicos às vezes com cortes nas mãos. Não por ignorância, simplesmente acredito que é uma via de contágio díficil mas não improvável.
A questão dos filhos deve ser sempre discutida com uma equipa de médicos. Há verdadeiros milagres em que pais seropositivos têm bebés saudáveis sem que se encontre ainda explicação para tal. Há a posibilidade da lavagem de esperma mas ainda não conheço bem esta prática em Portugal. Há a opção de não se ter filhos simplesmente, é algo que é pesado por muitos casais e em inumeras doenças sendo que a sida não foge à regra. Há em todos os casos que discutir os prós e os contras e que as resoluções sejam tomadas com consciência que tudo o que virá a seguir é para ser assumido.

Abraço

Odele Souza disse...

Achei o relato impressionante. Também por ver que existem pessoas da área da saúde que não têm um conhecimento maior sobre a SIDA.

Biby disse...

Olá!
Em primeiro lugar gostaria de felicitar a autora deste post e dizer-lhe para ter muita força.
Em relação á palavra "seroconverter" espero que a autora se esteja a referir ao facto de o preservativo romper e ela possivelmente se infectar involuntariamente. Outro aspecto que já aqui foi relatado são as/os companheiras/os que se infectam de proposito por "solidariedade" ao companheiro infectado/a.Isso
é outro assunto.
Em relação á questão de ter filhos é um assunto a discutir com os médicos, hoje em dia é possivel conceber sem colocar em risco a mulher e o filho no caso de casais serodiscordantes.
Achei curioso o facto de a senhora e o marido serem profissionais de saude e sentirem-se de certa maneira imunes á doença. É muito frequente e deve-se á falta de formação nesta área que muitas vezes é abordada na faculdade com muita ligeiresa. Aconteceu o mesmo comigo!
É necessária mais formação, sobretudo para lidar com o medo da morte que é em ultima instancia o medo que nos faz discriminar quem tem esta infecção.
Mais uma vez uma palavra de esperança para a autora do post e para todos aqueles que vivem e convivem com a infecçaõ VIH/SIDA.
Beijinhos
BIBY

R. Rudoisxis disse...

Nela
Realmente as declarações do Papa chocam. Escrevi um post cheio de ironia e não o publiquei para não ofender genuinos crentes da fé cristã. Depois mais soft escrevi outro e que está publicado no Sidadania Dois. Beijos

R. Rudoisxis disse...

Alex(a)
Realmente o testemunho é muito bom.
Não expressa todo o sofrimento da autora que segui durante meses e os medos que revelava com o pensamento de que poderia estar infectada. Houve uma altura em que fui mauzinho, face aos receios que ela tinha de ir fazer os testes e cheguei mesmo a dizer-lhe que não lhe respondia a mais emails antes dela fazer os testes. Depois ela compreendeu fez os primeiros depois outros passado mais um tempo e felizmente ela não está infectada, mas os medos que ela passou só podem ser comopreendidos por quem passou por situações iguais. Beijos

R. Rudoisxis disse...

Fatyly
Hoje o risco de uma criança nascer infectada é minimo se houver seguimento médico durante a gravidez. Há métodos de lavagem de esperma, que cairão em desuso com o actual conhecimento de que pessoas sem carga viral indetectável não infectam os seus parceiros. Ainda há a hipótese de na altura em que deseja ficar grávida a mãe (não infectada)tomar antiretrovirais ou seja a terapia PEP para evitar a infecção. A infecção pelo HIV não é obstáculo a que se gerem filhos não infectados, os quais em casais infectados são desejáveis por constituirem um incentivo à vida dos próprios pais,dando-lhe força para viverem e se tratarem. Beijos

R. Rudoisxis disse...

Sodeny
A autora do testemunho nunca esteve infectada, apenas o marido.
Quanto à falta de informação por serem ambos profissionais na àrea de saúde isso só revela a falta de formação nesta àrea por muitos daqueles que nos tratam. Até à bem pouco tempo muitos dos médicos que atendiam seropositivos não tinham formação para tal. Ainda hoje é notória essa lacuna e eu tive a oportunidade de testemunhar isso quando me prescreveram medicamentos para outras patologias que não podia tomar por interferirem com os retrovirais, sendo que tinham conhecimento da minha serositividade e dos medicamentos que estava a tomar para o HIV. Beijos

R. Rudoisxis disse...

Arnaldo
Por incrivel que pareça existe ainda muita falta de formação na area da saude em relação ao HIV.
Na resposta ao comentário da Sideny mostrei o que se passou comigo.
Quanto ao ter filhos já o referi também em resposta acima.
Alguns anos atrás havia médicos que se recusavam a tratar doentes com o VIH. Depois esses doentes começaram a ser desejados pela notoriedade que o tratamento da doença lhes dava. Foi pena que nessa altura de viragem não fosse exigida uma formação cuidada sobre o virus e medicamentos para o controlar. E assim vai o mundo, que mais lhe poderei dizer.
Abraço

R. Rudoisxis disse...

M.
O só acontece aos outros continua a ser o mote para a dança do HIV.
Mesmo com conhecimento e informação estando em classes sociais mais informadas, existe sempre no momento de acção a tentação e o pensar de que nada vai acontecer. Não fosse isso e certamente haveria muito menos infectados em todo o mundo.
Quanto à explicação sobre o nascimento de bébés saudáveis filhos de pais seropositivos, o novo ser gerado está num santuário onde é dificil a penetração do virus. Com tratamentos durante a gravidez a taxa de transmissão parental foi reduzida em mais de 90% dos casos.
Mesmo não havendo ainda cura para o HIV, é indiscutivel que muitos progressos foram feito no combate ao virus. Beijos

R. Rudoisxis disse...

Odele
O seu comentário e a constatação da falta de conhecimento mesmo na area dos profissionais de saúde leva-nos a pensar em como é dificil levar informação sobre o HIV e como o prevenir às classes menos informadas da população.
Nunca é demais alertar e todas as campanhas de sensibilização que se possam fazer são poucas face à realidade que novas infecções estão acontecendo todos os dias.
Beijos

R. Rudoisxis disse...

Biby
Certamente a nossa amiga que escreveu este testemunho, está ciente que a sua seroconversão só poderá acontecer por acidente de rebentamento do preservativo.
Contudo e depois de meses e meses e de muitos emails trocados, nos quais ela referiu estar disposta a uma abstinência sexual, ela está informada daquilo que deve fazer em caso de acidente como o rebentamento do preservativo.
Tem conhecimento de que deve dirigir-se a uma urgência e solicitar a profilaxia PEP, que se revela eficaz nestes casos.
Um mês de retrovirais e continuará seronegativa.
Beijos

Fatyly disse...

Raul
Obrigado pelos esclarecimentos.

Beijocas

f@ disse...

Olá Raul,

Parabéns pelo post..
depois de tudo o que já foi dito... resta-me perceber... ou talvez não a mim... sobre a morte...
mesmo sendo infectado pode morrer-se de outra forma ... acidente.. mas afinal o que importa do que se morrer... o que importa o nome da morte..... difícil ás vezes perceber o que as pessoas tem dentro...
pois perante uma situação de doença ainda se pensa não na cura ou na luta mas no nome da doença...
bom que a cabeça e os sentimentos pudessem mudar a maneira de encarar o mundo...

Beijinhos e abraço gigante