PROGRESSO OU NÃO?


Acho que sempre me conheci tendo períodos de grande actividade e outros em que muito pouco ou nada produzia.
Com o passar dos anos aprendi a equilibrar esta característica até porque a actividade profissional assim o exigia.
Hoje decidi ir ver os blogues pois faz tempo que lá não ia e se há leitores que nos visitam e gostam de ler aquilo que escrevemos, temos que basicamente assumir o compromisso de regularmente escrevermos algo que tenha interesse para eles tanto mais que defendemos a causa de uma doença terrível a qual embora muitos possam dizer o contrário necessita de informação das suas características e dos danos que causa nas pessoas infectadas.
A SIDA precisa de ser explicada a todos de uma forma diferente, pois para a maioria da população continua envolvida num manto de mistério em que o que é visível é o que nos seus primórdios foi trazido a público. A mensagem de morte, de indivíduos cheios de chagas e debilitados, bem como de grupos de pessoas marginalizadas pela sociedade, como negros, homossexuais e tóxico dependentes, continua bem viva na mente de muitos.
Mesmo naqueles que de alguma forma parecem informados e aparentemente parecem ver a comunidade seropositiva como pessoas iguais que apenas têm uma infecção crónica sem riscos para terceiros, encontramos debaixo dessa capa o medo de que o convívio e aproximação a seropositivos lhes possa causar danos.
É importante manter um espaço como o sidadania vivo, informando e desmistificando a SIDA.
Ao fim de 12 ou 13 anos de infecção e tratamentos retrovirais (perdi-lhe a conta por achar isso pouco importante) o doente seropositivo tem uma visão da infecção completamente diferente, da doença. Não se curou, está ou não estabilizado e tem uma série de novas patologias, que não sendo consideradas doenças oportunistas definidoras de SIDA, pois o seu sistema imunitário responde a pequenas infecções, fazem com que a sua vida esteja em risco.
O velho ditado “Não morres da doença, morres da cura”, parece neste caso ser uma verdade e estar actualizadíssimo no que às terapias anti-retrovirais diz respeito.
Ninguém assumidamente refere que os tratamentos originam doenças de todo o tipo muitas delas que acabam por contribuir para que a industria das agencias funerárias se desenvolva e tenha cada vez mais clientes.
A medicina avançou, a esperança de vida aumentou em X anos, e todos parecem felizes devido a esses progressos. Pergunto-me a mim próprio acerca da qualidade de vida se ela também melhorou em relação aos doentes. Carradas de medicamentos a tomar pelas pessoas mais idosas, contas astronómicas na farmácia em medicamentos que suportam a vida e são indispensáveis à sua continuidade. Muitas vezes a conta dos medicamentos tem prioridade sobre necessidades básicas como uma alimentação saudável.
Importa estar vivo, com dores maiores ou menores, torcido ou menos torcido, dependente física ou economicamente de terceiros ou não. É óptimo para as estatísticas sobre longevidade e excelente para se provar o desenvolvimento das ciências médicas.

Li há dias uma noticia de que num país africano a esperança média de vida era de 38 anos, e pensei sobre o que é melhor para o ser humano se morrer numa altura em que está ainda apto para todas as funções da vida ou se é preferível prolongar-lhe a vida deixando o seu corpo e mente degradarem-se até chegar a um estado de dependência chocante, pelo menos do meu ponto de vista e da maneira como eu vejo a vida.
Hoje apeteceu-me escrever e se me der na veneta continuarei a escrever e a publicar nos outros 3 blogues do “Sidadania”.
Será que estou num período de super actividade? Acho que não. Estou apenas numa fase de reflexão em que não quero ver nem contactar com ninguém.
Acho que me estou questionando, se em relação a mim todo o progresso da medicina foi útil ou não.

7 comentários:

alex disse...

raul
querido amigo
ainda bem que voltaste
a produzir
tinha saudades de ler os teus textos.
Não vou comentar . Tu sabes bem o que penso.Força neste momento menos bom
bjocas

Fatyly disse...

Sendo eu uma frequentadora assídua porque gosto muito de aprender, respeito em absoluto a "ausência de posts". Rapaz isto não é uma obrigatoriedade, mas sim um espaço que se vem "quando e sempre que nos der na "veneta" e se estás numa fase de reflexão em que não queres ver nem contactar com ninguém...tenho só que respeitar e mais nada.

Mais um texto magnífico com várias reflexões, a longevidade tão curta de uns a contrastar com a tão comprida de outros, mas...também questiono muito

"Pergunto-me a mim próprio acerca da qualidade de vida se ela também melhorou em relação aos doentes" não só aos portadores do HIV mas em todos em geral.
Quando vou a um lar, ou até a casa de algum vizinho e vejo "a degradação fisica e uma dependência chocante" valerá a pena dizer "que bom já fez setenta, oitenta e muitos anos?????"
Inquietante e perturbador por não ser justo ficarmos aprisionados num corpo e dependentes de terceiros.

Toma um beijinho em cada bochechinha e arriba, arriba:)

M. disse...

Acima de tudo Raul, blogar nunca é um dever mas um meio de estar bem. Se transformado numa obrigação acaba por se tornar extremamente enjoativo como quando se diz "estou a ficar verde". Há apenas um aspecto a ter em conta: é natural os leitores mais assíduos estranharem longas ausências e quererem saber que está tudo bem. Apenas isso. Não queres ver ninguém é? Pois mas até isso faz parte do ser humano, uma vez por outra temos necessidade de nos fecharmos na concha ou de sermos toupeiras, ou ainda de andarmos numa fase de autoquestões, se vale a pena, se isto valeu etc etc, isto dá pano para mangas qundo o assunto são doenças e dores Raul. Qualquer pessoa e não é necessário estar infectado com o virus da sida, mas qualquer um está sujeito hoje em dia a ficar dependente de terceiros ou acabar a vida num estado que dizes achar pouco digno. Vais perder o teu tempo precioso a pensar nisso? Quem é que dizia constantemente que a vida são momentos a ser vividos ao máximo? E em qualquer momento da tua vida não saberás mesmo que o progresso da medicina te foi útil, que te permitiu ficar entre os vivos com a qualidade que não tem de ser perfeita mas o suficiente para te proporcionar uma vida confortável a nível da saúde? Acredita que és cheio de sorte, apesar do que possas dizer sobre haver interesses económicos acima de tudo, a ciência encontra-se a lutar pela cura. Há doenças igualmente graves que não estão na mesma perspectiva, ou porque o estudo é dispendioso ou porque são tao raras que acham que não se justifica a mobilização de meios para o seu combate.

Beijo

sideny disse...

Raul

Claro que o progesso da medicina te foi util sim.
Estas vivo, podes andar, falar, escrever,não dependes de ninguém.
É muito bom acredita.
Sabes quando venho do hospital como foi hoje, costumo dizer que fui para lá boa e vim doente.
aquilo que eu vejo poe-me doente
nao da nossa doença mas de outras.
Por isso Raul não te canses a
pensar nisso .
beijocas

Arnaldo Reis Trindade disse...

Amigo, é sempre bom ler o que escreves, e sempre complicado também, sei que é complicado entender a vida, seja lá qual idade ou doença você tenha ou se não têm nenhuma doença, sempre pensei nisso que estás pensando agora, se vale a pena ou não viver muito, mas depender dos outros, de outros que em algumas vezes podem estar cuidadndo de tí apenas por obrigação eem alguns casos, acontece de que os filhos costumam bater, maltratar os pais depois que estes ficam muito idosos e sem condição de cuidar-se.
Acho que a medicina progrediu sim, o que não progrediu foi a cabeça de algumas pessoas, ou melhor de muitas, a sua progrediu, seu modo de pensar e de se expressar é fantástico.

Abraços.

Odele Souza disse...

Raul,

O blog é muito importante na medida em que se transforma em uma poderosa ferramente para passar e receber informaçoes e assim interagir com as pessoas. Mas tem um lado que exige atenção e cuidado para que não nos tornemos escravos de nossos blogs. Essa talvez "sutil obrigatoriedade"de visitarmos "trocentos blogs" ler e comentar os posts. Não há tempo e nem sempre disposição para isso. Mas sabemos que alguns não nos visitam se não vamos aos seus blogs. Paciência. Iremos quando der, quando tivermos vontade, disponibilidade...
E assim vamos levando.

Deixo-te um forte e carinhoso abraço.

Biby disse...

Olá Raul!
Eu tambem tenho andado ausente mas é por um bom motivo: arranjei emprego na minha area (ainda que não tenha sido na area da SIDA).
Postar num blog não deve ser uma obrigação mas sim ao sabor das nossas proprias necessidades.
Em relação ao progresso da medecina acho que é util. Para poderes beneficiar da cura é primordial que estejas vivo e de "relativa" boa saude até quando esse momento chegar.
Beijinhos e muita força
BIBY