EX-EX-GAY


Ex-ex-gay é a denominação utilizada para as pessoas que afirmam ter encontrado o caminho para converter a sua homossexualidade em heterossexualidade.
Numa sociedade que teima em não aceitar as pessoas cuja preferência sexual é diferente da socialmente aceite e dita como normal em que a diferença de género é obrigatória e que procura nas diferenças motivo para justificar actos de discriminação e estigma, pergunto-me a mim mesmo o que importam as diferenças em actos do foro intimo em que os participantes numa relação sexual se sentem bem, se realizam e a excitação e libido fazem parte da sua essência e é o seu modo natural de viverem a sua sexualidade.
As pessoas seja qual for a sua preferência sexual têm sentimentos, capacidades intelectuais e outras, personalidades definidas mais ou menos aceites por aqueles com quem convivem, mas há a tendência em estabelecer padrões ditos como normais em relação à sexualidade, e quem estiver fora daquilo que é considerado como standard, imediatamente vê as suas qualidades e capacidades minimizadas e passa a fazer parte dos excluídos de uma sociedade que actua como se fossemos um produto em que o controle de qualidade define como defeito de fabrico essa diferença.
Nas noticias, que vou lendo ouvindo e vendo nos meios de comunicação de massas, aparecem declarações de membros do clero, dizendo que a homossexualidade não é normal. Não têm coragem de a definir como uma doença pois a comunidade cientifica deixou de a considerar como tal e a evidência cientifica poderá fazer com que esses senhores e as suas declarações sejam consideradas como ridículas. No entanto esses religiosos não falam de casos de pedofilia com relações homossexuais ou não e outras práticas danosas para terceiros perpetradas por membros do clero em todo o mundo .
Contudo a pressão sobre a diferença não cai em saco roto e seguidores dessas crenças religiosas que na sua essência são homossexuais, acreditam que o poder do divino os poderá (curar) libertar daquilo que aos olhos do altissimo é pecaminoso e tentam converter-se à heterossexualidade. Muitas vezes pensam sentir-se libertos, casam têm filhos e mais tarde chegam à conclusão de que é contra natura aquilo que estão fazendo pois não faz parte da sua essência natural. O voltarem a ser aquilo que na verdade sempre foram, tem custos enormes não só para eles mas para o casal que deixa de o ser e para os seres humanos gerados enquanto durou essa experiência de conversão a uma heterossexualidade forçada.
Tolerância e aceitação nas diferenças evitariam males maiores, mas continuamos cegos preferindo aceitar as aparências como virtudes, rejeitando o natural de cada um de nós quando o mesmo não se enquadra nos padrões definidos.
Choca-me toda a descriminação e hipocrisia contra aqueles que de alguma maneira são diferentes e acredito que a qualquer nível mesmo fora da sexualidade todos nós guardamos dentro da nossa concha algo que faz parte da nossa essência como seres humanos, algo que a ser revelado faria com que outros nos rejeitassem sem se lembrarem que também eles escondem algo que poderia ser reprovado por outros.
Seres imperfeitos, que desenvolvemos máscaras com as quais nos apresentamos à sociedade, somos vistos não na pureza da nossa essência mas naquilo que queremos mostrar ao mundo.
Isso contudo não nos inibe de tolerarmos e aceitarmos aqueles que de alguma forma revelam uma faceta que desnuda a sua essência. Certo é que se aceitarmos essas diferenças estaremos contribuindo para uma aproximação que nos poderá revelar um ser humano maravilhoso que nunca descobriríamos se à partida o rejeitássemos e o excluíssemos entre aqueles com quem nos relacionamos.

10 comentários:

alex disse...

Amigo Raul
Como é que em pleno seculo XXI, ainda se descrimina pessoas por causa da sua preferência sexual?
O que é o NORMAL em relação à sexualidade?
Como é possível que se veja ainda a preferência sexual como um pecado?
Os menbros do clero que falem do pedofilismo, que nada tem a ver com a homossexualidade e que por todo o mundo é um problema dentro da igreja.
Que aborrecido seria este mundo sem diferenças.
Qual é um ser humano como ser imperfeito que não tem escondido um "esqueleto no armário" ou uma parte "lunar" que não lhe interessa mostrar em sociedade
A beleza dos humanos está precisamente nas diferenças,sejam de pele, de ideais,preferências sexuais, de credos e crenças.
Esta xenofibia por parte de alguns irrita-me profundamente.
beijo amigo

Fatyly disse...

Parabéns Raul por este magnífico texto sobre o toldo que tolda as ideias de quem se diz dono da verdade, sabedoria, cordealidade e união.
Concordo com tudo o que dizes porque continua e continuará a haver hipócrisia e descriminação e nunca é demais batalharmos para o derrube dessas fronteiras tão limitadas e limitadoras.

Força!!!

Beijocas e um bom domingo

M. disse...

Sinceramente Raul, a única coisa que me chateia quando se debatem as questões da homossexualidade é o modo como se abalam as questões de Fé quando se traz a culpa da Igreja para o meio. É impossível não trazer esta instituição para o debate já que de a Igreja é a maior culpada (senão a única) pela discriminação que sofrem os homossexuais e é escandaloso que ainda hoje existem padres a aconselhar homossexuais masculinos a casarem com mulheres para manterem o status apesar de isso destruir a verdadeira noção do casamento. A Igreja comete erros há séculos e a alguns atreve-se a pedir desculpas por eles à humanidade, pela boca dos Papas, para depois cometer outros. Infelizmente hoje temos um Papa ainda mais conservador que segue uma filosofia reaccionária dando apenas espaço a quem pensar como ele cercando-se de pessoas que não o criticam e apenas o seguem, cometendo erros atrás de erros sem bispos a corrigi-lo e não apreciando ser contestado. Nomeia bispos favoráveis à Opus Dei e aos movimentos conservadores. Resumindo: um Papa que acabará a falar só, não antes de provocar estragos em inúmeras mentalidades.
Eu acredito profundamente e penso que os casais homossexuais que têm uma relação estável e verdadeira e que sofram em especial por terem tido educação religiosa na qual se debatia a homossexualidade como pecado devem descansar a consciência e convencerem-se que o Novo Testamento nem faz sequer uma alusão concreta à homossexualidade, havendo apenas uma única referência na Carta de Paulo aos Coríntios (6:9-10): “Não errais: nem os impuros, nem os idólatras, nem os adúlteros, nem malakoi nem arsenokoitoi (…) herdarão o reino..” . As duas últimas palavras foram traduzidas em inúmeras possibilidades: depravados, prevertidos, meninos enfeminados e nenhuma das traduções foi validada com o termo homossexual em nenhum texto nem época e ainda hoje desafiam quem possa provar contrário. Nos tempos modernos deduziu-se por qualquer motivo que a partir da tradução de “enfeminados” pode ter surgido a conotação de homossexual mas muitos estudiosos, investigadores, teólogos religiosos que trabalharam no decifrar da Bíblia continuam a manter a ideia de que a tradução de São Paulo se referia a uma condenação ao sexo lascivo, idolátrico e promíscuo seja entre pessoas do mesmo sexo ou de sexo diferente, exactamente por igual.
E mais! O novo “catecismo da Igreja Católica”revela uma compreensão para a homossexualidade referindo-se à mesma como “(…) homens e mulheres que não escolhem a sua condição (…) que constitui para a maioria deles uma provação. Devem ser por isso acolhidos com respeito e delicadeza(…) evitar-se-ão para com eles todas e quaisquer atitudes de discriminação injusta(…)” .- e isto não representa de facto uma luz no fundo do túnel? Um princípio que vai recair sobre o molde do pensamento dos mais pequenos que crescerão sem as antigas ideias a assolar pelos ouvidos adentro e ensinando-os a estar na sociedade sem questionar pessoas do mesmo sexo que se amam?


Já chega pronto, alonguei-me, mas que diabo, ainda dizia muita coisa. Sobre esses apelidados de ex-ex gays, sinto sinceramente mais compaixão deles do que outra coisa. Não há nada que provoque mais sofrimento do que agir contra a própria natureza. Não há deus algum que deseje uma tão grande antítese de liberdade para amar para um ser que se diz seu filho.

Abraçossssss

SILÊNCIO CULPADO disse...

Raul
A homossexualidade é algo de tão natural quanto a heterossexualidade e a procriação. As diferentes espécies animais também têm os seus gays que respeitam e integram nas suas sociedades. Os humanos, muito mais retrógrados que muitos animais, não sabem ler e conviver com a natureza e apelam a deuses castigadores e injustos.
Só é mal e digno de censura os actos humanos que trazem consequências nefastas para terceiros. Ora a homossexualidade é do foro íntimo de cada um.
Muitos dos gays são pessoas excelentes com um desenvolvimento de sensibilidade admirável. Deixemo-nos pois de absurdos rídiculos. Eu própria tenho escrito frequentemente sobre esta matéria mas acho sempre, quando o faço, que vivo numa sociedade muito atrasada (apesar de não ser das piores) que me obriga a pretender legitimar o que naturalmente é legítimo.
Mas temos que ir empurrando, né Raul? Pode ser que um dia haja mais amor e menos intolerância.

Abraço

Brancamar disse...

É mesmo isso que diz a Lídia, pode ser que um dia haja mais amor e menos intolerância e como o amor é sempre uma benção que humaniza as pessoas, coisa que os intolerantes ainda não experimentaram, é deles que Deus espera uma mudança no sentido de serem melhores.
Como aqui já foi dito, muita coisa há na nossa vida íntima que aos olhos intolerantes de alguns grupos nos tornariam de uma forma geral discriminados, porque durante muitos anos foi ensinado que tudo era pecado.
Há também livros científicos que afirmam que todos nós temos um pouco de homossexuais mesmo nas relações heterossexuais, e também um pouco do género oposto em muitas manifestações e isso será absolutamente natural, saudável e importante. Às vezes nem percebo muito bem porque temos que discutir tanto a intimidade dos outros e fazê-la depender da opinião de alguns grupos, mas se para se abanar mentalidades hipócritas tiver que ser assim, pois que se discuta, mas com o máximo de respeito e amor pelo que só a cada um pertence.
Beijinhos
Branca

Arnaldo Reis Trindade disse...

belo texto Raul, mais um par tua gigantesca lista, espero que este, como tantos outros, sirva como exemplo pra quem não respeita a opinião,seja de qual tipo for, a opinião alheia, seja em relação a sexualidade, crença ou o que for e mais uma vez digo, livros como a Bíblia e o Alcorão, que dizem ser sagrados se não "traduzidos" corretamente, continuarão a levar a vida d emuitas pessoas, umas através do sacríficio da carne, outras do sacríficio do coração e da alma.

Abraço e gostaria de poder publicar este texto em meu blog se tiver a tua permissão.

Maria Dias disse...

Oi Raul...

Passando por aqui rapidamente para
lhe dizer q tenhos estado com muita vontade comentar até pq teus posts tem sido muito interessante. Mas ando sem tempo... A noite voltarei para te ler com calma!

Beijinhos de saudade!

Maria Dias

mariam disse...

Raul,
fantástico post (como sempre :))

passei para desejar que tenha um dia (que 'dizem' ser da Mulher!) muito Feliz! seguido de muitos outros não menos fantásticos!

deixo um abraço e o sorriso de sempre e saudades!
mariam

Isabel-F. disse...

"...Certo é que se aceitarmos essas diferenças estaremos contribuindo para uma aproximação que nos poderá revelar um ser humano maravilhoso que nunca descobriríamos se à partida o rejeitássemos e o excluíssemos entre aqueles com quem nos relacionamos.
"

tens toda a razão e,
parabéns pelo teu texto ...
está magnifico.

beijinhos

Paula Raposo disse...

Vive-se muito de fachadas e isso é uma coisa com a qual não lido nada bem! Detesto descriminação.