Um Mundo Solitário


O mundo contemporâneo é caracterizado por uma vivência permanente em crise económica, social e espiritual. Encontramo-nos cada vez mais sós no meio da multidão, que deambula também, tentando encontrar no futuro a ausência de uma vida presente, vivida e saboreada a cada momento. O presente não tem tempo, pois o tempo não chega. Mesmo que acrescentemos o tempo, o tempo não nos acrescenta.

Do ponto de vista econónimo, trabalha-se diariamente para sobreviver. Em rebanho, a rotina diária é constituída por um ir e voltar, sempre frenético e automatizado. Os dias de trabalho são consumidos em competição, muitas das vezes desleal e sem sentido, garantindo o posto de trabalho, através da sombra que exercemos, sobre o mérito alheio, que só por si é uma ameaça constante à nossa segurança, num mundo cheio de incertezas, que se reproduzem a cada dia que passa.

A evolução na carreira, não significa uma evolução pessoal enquanto ser humano, mas muitas das vezes uma ascensão figurada em manhas e artimanhas, visando apenas a promoção profissional com uma correspondência directa à obtenção do dinheiro rápido que comanda a vida.

Todos os meses e após tanto esforço, leal ou desleal, o rendimento auferido, na esmagadora maioria das vezes, serve somente para honrar as despesas fixas, mais do que muitas, criadas por uma sociedade de consumo, onde todos queremos ter tudo e até um pouco mais se puder ser, ou até mesmo se não puder ser. E o ciclo repete-se anos a fio, durante uma vida inteira.

Do ponto de vista social, as relações que criamos com os outros, são na maioria das vezes superficiais, visando este ou aquele interesse que cada pessoa possa representar para nós. A amizade propriamente dita, no seu verdadeiro sentido, é um bem cada vez mais raro. Mesmo nas relações familiares, os laços são cada vez mais fracos e distantes, existindo familias que passam meses e até anos, sem se relacionarem social e familiarmente. Há familias, cujos membros somente se encontram nas datas festivas, nos baptizados, nos casamentos, ou nos momentos de dor, nos funerais. Aqui, por vezes, fazem-se contas à vida, desenham-se retrospectivas e lamentam-se tantos dias desperdiçados, com a certeza de que no dia seguinte, o mundo voltará à rotina obrigatória e instituída.

Está em voga o denominado mundo virtual, que caracteriza o admirável mundo novo, onde nos tempos livres, nos relacionamos com os outros, com a facilidade de podermos sair e entrar sempre que quisermos, comodamente. Este mundo, adapta-se milagrosamente à essência que caracteriza o ser humano na actualidade, à distância de um "click" que nos permite ser ou não ser, estar ou não estar.

Do ponto de vista espiritual, vivemos desprovidos como a própria vida nos permite viver. A nossa moral, os nossos valores, confundem-se constantemente entre aquilo que somos, aquilo que queremos ser ou aquilo que gostariamos ter sido. A fé aparece e desaparece com a mesma velocidade com que vamos sobrevivendo. A religião é uma presença intermitente, consoante o desenrolar dos dias. A esperança ora aproxima, ora afasta o sonho, onde está contido o que ambicionamos conquistar, num futuro sempre distante, longínquo e consequentemente inatingível.

Poderá existir um sentido positivo que constitui o lado que contraria todas as constatações expressas nestas palavras. No entanto, o equilíbrio está cada vez mais longe de se atingir. Perderam-se os calíbres, definitivamente.

O mundo serpenteia sem rumo desenfreadamente. O isolamento e a solidão instalam-se em homens e mulheres, em todas as faixas etárias. Viver significa sobreviver. O ser humano está só, ao ponto de já não ser possível encontrar-se a si próprio.

Há que repensar a vida e consequentemente repensar o mundo. Há que renascer e recomeçar de novo, eternizando a efemeridade da vida, assente no sentido de ter valido a pena termos existido.

Aos infectados pelo VIH e a todos os que sofrem no mundo pelos mais diversos motivos, há que encontrar na dor, o motivo maioritariamente suficiente para viver intensamente, sempre um dia de cada vez e por os todos os dias da nossa vida, com a certeza de que enquanto permanecermos sózinhos, jamais o conseguiremos fazer.

18 comentários:

Fatyly disse...

Li com muita atenção este teu "olhar sentido sobre as actuais sociedades".

Há de facto familias que só se juntam nos casamentos e funerais, o que eu não faço de maneira nenhuma, porque quem nunca me procurou nem mesmo em Angola, não é nessas alturas que apareço. Só porque é tio? primos? que tio? que primo?
No funeral do meu pai e sobretudo pela sua maneira de ser enquanto foi vivo só apareceu quem privou com ele e olha que não foi preciso dizer nada porque ele durante a vida encarregou-se de "deixar o recado".

Depois falas do "consumismo", ah pois é e de quem é a culpa? da educação que os da minha geração se encarregaram de dar aos filhos, ou seja darem tudo além do que os nossos pais nos ensinaram. Há uma frase muito verdadeiro: Nos anos 60a ordem era "poupar" e a partir dos anos "80" passou a ser "comsumir". E aqui entra os valores morais: uma criança de seis anos com mesada?, com telemóvel XPTO" e quando começam a conduzir dão-lhes autênticas bombas nem que fiquem endividados mas sim para mostrar aos outros que o menino também tem. Dar sim senhora, apenas o que precisam enquanto estudam, porque é o trabalho deles e uma mais valia para o futuro. Se começam a trabalhar deve-se fechar a torneira e saindo de casa, apoiar no que for preciso, mas sem se meterem na vida deles e continuar a facilitar tudo como vejo por aí.
Nunca funcionei assim e até hoje dei-me bem e nunca me arrependi de nada.

A internet é uma mais valia para quem vem aqui "por bem" mas para mim jamais substitui o abraço, o beijo, o carinho e a conversa que deveremos manter com quem se cruza connosco na rua, com um café tomado entre amigos e vizinhos, um passeio a pé, etc, etc.

A fé é muito discutível e qualquer humano tem a sua "própria fé" não obrigatoriamente ligada a religiões, porque sonhar, acreditar é ter fé em alguma coisa:)

e nesta base cada vez mais é visível e sentido o que dizes:

"A nossa moral, os nossos valores, confundem-se constantemente entre aquilo que somos, aquilo que queremos ser ou aquilo que gostariamos ter sido." e compete a cada um de nós mudar o rumo do sentimento do momento.

Subscrevo as tuas palavras aos que são atingidos por flagelos de saúde, mas acrescento outro apelo: façam tudo por tudo e num trabalho diário DE NÃO SE ISOLAREM porque há imensas coisas que se faz na sociedade onde podemos encontrar "companhia, companheirismo, sorrisos, fraternidade e outras coisas semelhantes".

Um grande abraço e se a sociedade é parva, hipócrita, fria, falsa e vazia de tudo eu jamais o serei e isso já me dá tranquilidade: a sociedade SOU EU e quem pensa e procede como eu:)

Um abraço sincero

Paulo disse...

Fatyly
Obrigado pelos comentários a cada um dos temas que redigi neste post.
Fico feliz por subscreveres as minhas palavras na sua essência, o que prova que tenho razão ao sentir o mundo deste modo, pois não sou o único a senti-lo assim. Não pretendo ser negativo, pretendo sim, tentar alertar as pessoas, para que se promova a mudança, tão rapidamente quanto possível.
Um abraço sincero.

SILÊNCIO CULPADO disse...

Paulo
O mundo é solitário quando se torna abundante, quando as pessoas não são vítimas das catástrofes naturais, quando não sofrem da fome endémica em que se morre e se vê morrer à míngua mas, mesmo assim, ainda se reparte.
O egoísmo desenvolve-se nas pessoas quando elas se materializam, realizando-se através do consumo, essa forma enganadora dos símbolos de status que levam à destruição e à morte não do corpo mas do espírito.
Há pessoas que estão mortas, Paulo, e ainda não deram por isso. Curiosamente as que se sentem ameaçadas pelo espectro da morte, em virtude duma qualquer patologia grave, tornam-se mais vivas, mais humanas e mais solidárias.
Esta consciência da solidão e do medo de não encontrar amor em cada trilho do caminho talvez nos possa conferir uma nova dimensão humana e possamos, deste modo, inverter a tendência dos dias solitários e agrestes. Nestes espaços virtuais vamos conhecendo e aprofundando amizades e talvez assim a dar início a um novo ciclo mais construtivo e sensível.
Os teus textos são lindos e fazem acreditar.Eu às vezes também tenho medo, não o medo concreto e identificado mas o medo animal sobre a fragilidade das coisas. Especialmente quando vemos partir alguns dos que amamos e nos sentimos impotentes. Especialmente quando se procura o sentido da vida sempre que sentimos que ele nos foge.
Mas nos momentos de desânimo pessoas como tu fazem toda a diferença. E porque não há pessoas felizes mas momentos a solidariedade não pode ser um bem secundário.
Um abraço apertado

Paulo disse...

Lídia
O seu comentário acrescenta o meu texto em todos os sentidos e está de tal modo bem redigido que só por si daria um post de enorme valia. Tem muita razão em tudo o que diz e em tudo o que sente. Muito obrigado pela sua participação pelo que retribuo o abraço apertado hoje e sempre.

Coragem disse...

Uma vez li um texto que jamais esquecrei, dizia qq coisa como isto.

Levamos uma vida inteira a trabalhar para um futuro melhor, não vivemos, sobrevivemos. Corremos, para satisfazer os desejos posteriores.
Planeamos a vida unicamente com o objectivo de futuramente sermos felizes, completos.

Que grande engano, neste entretanto, que passou a nossa vida inteira, chegamos à velhice, cansados, doentes e olhamos o passado com saudade e quase sempre arrependidos de não ter aproveitado.

Lembro do teu comentário, onde descalçavas os sapatos e sentias a terra com os pés...

Existe coisa melhor, que saborear o momento de pé descalço?
Sentir a terra que nos acolhe?

É quase assim que eu vivo, com enorme simplicidade...
Troquei o corre corre da grande Cidade, para sentir a terra, o cheiro do ar que respiro.
Vivo intensamente cada momento.

Digo muitas vezes, sou perigosamente natural :)))

Posso até nem estar rodeada de muita gente, mas ao encontrar-me, sinto-me bem...

Um beijo sempre sincero

Maria Dias disse...

Oi Raul...Ou será Paulo?rs...
Olha, eu arrumei o post q dediquei ao teu blog.Ontem na pressa de escrever não tinha revisei alguns erros.Desculpe a minha falha.
Aprveito para te dizer q tb coloquei o blog nos meus favoritos.Obrigada pelo comentário.

Beijos e boa semana.

RAUL disse...

Maria Dias
Neste caso foi o Raul,que visitou o seu blogue. O Paulo é outra pessoa, embora haja quem diga que eu e ele somos a mesma pessoa, mas o mais importante é que a causa da SIDA/AIDS seja a causa de todos nós. Gostei do seu post e espero que continue a visitar-nos e que escreva muitos mais sobre o HIV.
Quando me ensina a botar aquela musiquinha fantástica aki no Sidadania?
Um beijo grande minha querida e faça o favor de ser feliz.

Odele Souza disse...

Paulo,
Li teu texto e os comentários que como já deves saber, fazem parte de minhas leituras nos posts.

O que escreves é uma realidade - até cruel - pode-se dizer. Mas é, infelizmente a realidade. Sociedade egoista, família nem sempre presente.Por vezes, acontece algo que nos coloca em evidência e aí até aparecem alguns
"primos", "sobrinhos". E repito o que Fatyly disse: - Que primos? Que sobrinhos?

Identifico-me muito mesmo com as palavras de Fatyly. E olha, o que consola é que mesmo vivendo em meio a essa sociedade tão fria, ainda assim podemos dizer que algumas pessoas são exceção. Aqui e acolá há alguns amigos que nos ajudam, com seu afeto, a "segurar a barra pesada". E assim vamos nós, de afeto em afeto construindo nossa nova realidade, sobrevivendo
a dores e dissabores.

Uma boa semana pra ti.

Paulo disse...

Coragem
De facto a vida é um corre, corre por coisa nenhuma. Os melhores momentos da nossa vida são passados a lutar, sempre a lutar. Quando chega a altura de aproveitarmos um pouco, estamos velhos, cansados e muitas das vezes doentes.
Lembro-me do meu pai, que trabalhou uma vida inteira numa fábrica, mais de 40 anos e quando se reformou, ficou doente e faleceu de imediato, pelo que, nem chegou a receber a primeira reforma. É duro, mas é verdade.
Por isso, temos que andar bem dispostos com a vida e sempre que pudermos usufruir dela ao máximo, nunca deixando para amanhã o que podemos fazer hoje, sob pena de já não o conseguirmos fazer.
Gostava muito de viver no campo... A cidade cansa-me a cada dia que passa.
Beijo sempre sincero.

Paulo disse...

Maria Dias
O que conta essencialmente é a sua intenção fantástica em abraçar a causa da SIDA/AIDS e poder ajudar a prevenir, pois todos somos vulneráveis.
Passarei pelo seu blog, tão breve quanto possível.
Aproveito para agradecer a sua amabilidade e simpatia.
Um beijinho

Paulo disse...

Raul
Aquele abraço de sempre...

Paulo disse...

Odele
São os amigos que fazemos ao longo da vida que nos abraçam e amparam e nos ajudam a viver com mais calor humano e com mais objectivos. O mundo está de tal forma solitário, frio e cruel, que se não criarmos laços com aqueles que se disponibilizam a ser nossos amigos, dificilmente viveremos sem cair na terrível realidade da solidão e do isolamento.
Um beijinho para Si e outro, muito especial, para Flávia.

Maria Dias disse...

Oi Paulo...

Fiquei muito feliz e tb emocionada com seu comentário terno e emocionado.Obrigada por partilhar comigo a tua emoção.Sinto muita sensibilidade vinda de vc.Eu respondi teu comentário lá, mas por ter outros para responder não respondi o teu como deveria.Bem...Já ouvi tantas pessoas comentarem q não usam camisinha pq escolhem as pessoas pela cara(ou seja por uma aparência saudável ou bela)como se isso desse a garantia de qualquer coisa.Já ouvi lamentos de amigas dizendo q os namorados ou "ficantes" se sentiram ofendidos quando elas pediram exames e muitas mulheres reclamam q os homens não querem usar camisinha...Tb já li em muitas reportagens q muitos homens(casados) procuram garotas de programa(prostitutas)e oferecem mais dinheiro para q elas não usem camisinha...Aí eu te pergunto q pessoas são estas?Q mundo é este?

Vou indo querido q vc tenha uma ótima semana.

Um grande abraço!

Paulo disse...

Maria Dias
A sua contribuição para a causa do VIH/SIDA (AIDS) poderá ajudar a salvar vidas. Não existe motivo maior no mundo do qual se possa orgulhar a partir de hoje.
Obrigado por ser quem é. Obrigado pela sua existência.
Um abraço em forma de laço.

Mary disse...

Paulo
O mundo é solitário porque vivemos a vaidade e não a autenticidade.
Adorei o teu texto que mostra a pessoa maravilhosa que és e os teus dotes de escrita.
Um abraço daqueles muito forte e muito especial.

sideny disse...

paulo
cada vez mais as pessoas se isolam
nâo convivem umas com as outras.
falando em quem se encontram nos funerais, olha esse amigo meu que morreu,os amigos desapareceram quando ele precisava,mas no funeral foram la, nao sei fazer o qué. eu não fui e respondi aum ajudei-o quando precissou de mim agora no funeral naõ precisa estou de consiencia tranquila.
quanto ao consumo -todos querem ter mais que os outros .eu preciso so para os bens esenciais.
e adorava viver no campo estou farta da cidade desta correria louca.
bej

Paulo disse...

Mary
Que felicidade ter-te por aqui. :)
Tens toda a razão, vivemos sempre de fora para dentro e nunca de dentro para fora. Somos imagens de marca treinadas para sobreviver. Somos o que não somos e passamos a vida toda sem nunca termos sido o espelho da nossa essência e integridade.
Um abraço total, grande, apertado, do tamanho da tua dimensão como ser humano.

Paulo disse...

Sideny
Tem toda a razão. Cada vez se vive mais no isolamento.
A hipocrisia reina no mundo. Enquanto o seu amigo precisou, ninguém quis saber dele a não ser a Sideny. Quando faleceu foram ao funeral, porque não já daria trabalho, nem incomodaria ninguém. Foram lá por curiosidade e talvez por remorsos (será?).
A Sideny pode estar de consciência totalmente tranquila. Fez muito ao ajudar o seu amigo e estou certo que a vida a recompensará por isso.
Temos muito mais do que aquilo que efectivamente precisamos para viver. Se soubermos repartir, o nosso muito será também um pouco daquilo que os outros precisam e a nós não nos fará falta nenhuma, além de que ficaremos muito tranquilos com a nossa consciência e seremos certamente mais felizes.
Beijinho