Inocente[mente] infectados [?]


O principal factor que contribui decisivamente para a discriminação e para o estigma a que estamos votados reside no comportamento de risco que constitui o motor de arranque, para que nos tornemos portadores do vírus da imunodeficiência humana.

Por comportamentos de risco, designam-se as relações sexuais desprotegidas, na maioria das vezes ocasionais, sem que conheçamos a condição serológica do nosso parceiro, quer para o VIH, quer para outras doenças transmissíveis sexualmente. Designa-se também o consumo de drogas injectáveis, pela utilização partilhada de seringas, cujo risco para o VIH e para as hepatites víricas, nomeadamente a hepatite C, é consideravelmente acrescido.

Existem outras doenças causadas por comportamentos de risco, como o cancro do pulmão, associado regularmente ao hábito de fumar. Contudo, essas doenças, causadas pelo comportamento, mas não assentes no tabu do sexo ou no consumo de drogas, passam despercebidas ao apontar do dedo da sociedade, sempre disposta a dar largas à sua forte e maldosa imaginação, que possibilita a passagem do tempo e a ultrapassar a rotina do dia-a-dia, aborrecida para todos.

Na infecção pelo VIH todos somos vítimas, pois considero que ninguém merece ser infectado por um vírus, que teimosamente condicionará a vida futura em todas as vertentes, cumprindo a sua missão ao determiná-la, eficazmente. No entanto, existem aqueles que são vítimas no verdadeiro e cruel sentido da palavra, na medida em que, são sacrificados aos interesses de outrem. Refiro-me às pessoas que não tiveram qualquer comportamento de risco e que por motivos que tão bem conhecemos, foram infectadas pelo vírus da SIDA.

Pessoas infectadas pelos seus parceiros, que procuram a realização das suas fantasias e anseios, motivados por uma fuga inconsciente à rotina e que em momentos de autêntica loucura se arrastam com quem quer que seja, sem a mínima preocupação em utilizar o eficaz preservativo.

Sou conhecedor de alguns casos, em que mulheres foram infectadas pelos maridos. Por incrível que pareça, dos casos que conheço, a maioria destas mulheres, perdoaram. E perdoaram porque o amor superou, falando mais alto e entregaram a maior prova de amor que se pode dar a alguém, que nos traíu, que nos escondeu e que trouxe para casa um hóspede resistente, a tudo e a todos.

Não encontro, nem me cumpre encontrar uma explicação plausível para esta realidade. A realidade é sempre da pessoa que sucumbe à desgraça e ao infortúnio. A realidade é sempre de quem sofre o dano, irremediavelmente.

Também os inocentementes infectados estão votados à discriminação, ao estigma e à exclusão. Não interessa porque se está infectado. Somente interessa que se está infectado.

Não poderia deixar de me referir às crianças que nasceram e que continuam a nascer infectadas todos os dias. Estas crianças serão também vítimas dolorosas da SIDA, onde o seu futuro morre à nascença, todos os dias e o Sol continuará a nascer diariamente, mas não brilhará com a mesma intensidade.

Este texto visa alertar todos aqueles, que tendo tido comportamentos de risco, que não discrimino nem estigmatizo, e que se encontrem envolvidos com a vida de alguém em plenitude sejam conscientes que têm nas mãos a responsabilidade acrescida dessa vida.

30 comentários:

Fatyly disse...

Tiro-te o meu chapéu e a melhor prevenção são textos como estes, sem lamechas, sem condenações, sem rancores mas numa de olhar em frente sem se deixar abater sobre o leite derramado.

Parabéns Paulo e um grande abraço a todos que sofrem de qualquer estigma que a sociedade os arreda.

Força e um resto de bom domingo

M. disse...

Acabei de me lembrar de uma coisa com este post. Há cinco anos tive uma grávida que fez o teste apenas aos 6 meses, por alguma razão não foi ao médico que costuma passar os rastreios antes da gravidez ou nas 1ªas semanas. O teste deu positivo ao VIH. passado um mês voltou a fazer o teste e referiu ali mesmo a infidelidade do marido, uma única vez quando fora a frança. O marido no entanto recusava se a fazer o teste como que não assumindo a culpa. isso representará um perigo enorme?
E felizmente o bebé nasceu seronegativo. Hoje tem cinco anos e não tem sida. O que faz com que algumas pessoas sejam imunes é algo que sempre me questionei. Podia ser o ponto de partida para a descoberta da vacina ou da cura.

até lá

que a consciência reine na mente de todos. portadores ou não.

beijos

Paulo disse...

Fatyly
Obrigado pela visita e pelo comentário que nos deixou.
Uma boa semana e um beijinho

Paulo disse...

m.
Infelizmente ainda continuam a surgir resultados positivos em grávidas, na fase adiantada da gravidez... Vá-se lá saber porquê?
E ainda existem médicos que não prescrevem o teste ao VIH, por acharem que o seu doente não se inclui no tal grupo de risco. A realidade é que não há actualmente grupos de risco, há sim comportamentos de risco o que é bem diferente...
Não sei explicar o porquê de existirem pessoas que não são infectadas ao relacionarem-se sexualmente com parceiros seropositivos, desprotegidamente.
Da mesma forma, nascem crianças negativas, sendo a mãe positiva.
Pura Sorte?
Da minha parte fico muito contente com esta realidade, apesar de não ser em percentagem maior.
No entanto, prefiro aconselhar a não jogar na roleta russa, pois de um momento para o outro...
Como referes, basta uma única, apenas uma relação desprotegida e tudo pode acontecer.
Mais vale prevenir sempre.
Beijo tatuado em ti.

SILÊNCIO CULPADO disse...

Paulo
Todo o ser humano deve desenvolver em si capacidades de compreensão em relação ao outro mesmo quando esse outro está numa situação que criou, conciente ou inconscientementemente, pelas opções que fez na vida. Mas isso não invalida que todos nós nos questionemos se os nossos actos terão consequências que irão recair sobre terceiros.
O caso das crianças com sida dói de sobremaneira mas também me dói a situação das mulheres que, por uma educação machista e discriminatória, têm que viver as infidelidades dos maridos como coisa natural, e quando acontece estes lhes passarem as doenças espera-se que elas aceitem perdoem e amem. Insisto: conheces algum caso de homens que tenham aceitado mulheres infiéis que tivessem sido contagiadas?
É que a discriminação, contra a qual me bato com todas as forças, existe em relação ao HIV, à homossexualidade, à raça, etnia, deficiência e, também, em relação à mulher.
E o que é mais curioso é que as pessoas discriminadas por uma destas características por vezes discriminam as que possuem outras.
Quero lembrar ainda em relação à mulher, e à sua aceitação, que muitas não têm ainda a independência económica necessária para viverem uma vida independentes do companheiro, que são 95% das vitimas de violência doméstica e de assassinatos passionais (só no ano transacto foram assassinadas 17) em Portugal e que, em média, o salário feminino é 17% inferior ao masculino por trabalho igual.
A mulher perde sensualidade com a sobrecarga dos trabalhos domésticos embora se lhe exija que esteja bonita, apetecível e disponivel depois de tratar da casa dos filhos, dos pais, trabalhar fora de casa, gerir as compras e o orçamento doméstico.
Não quero dizer com isto que a mulher não ame e não deva perdoar o companheiro em todas as circunstâncias. O que quero dizer é que esse perdão só pode resultar do seu amor e das suas valências humanas e não das circunstâncias atrás descritas.
Abraço

Odele Souza disse...

Paulo,

Causa-me especial comoção ver crianças contaminadas pelo virus da Aids.Para elas, é verdade, o sol não brilhará com a mesma intensidade. No entanto Paulo, a criança está em "vantagem" com relação ao adulto contaminado. Ela terá mais tempo de esperar pela cura da Aids, que eu sei, um dia chegará.

Um beijo e bao semana Paulo.

Paulo disse...

Lídia
Obrigado pelo comentário, muito ilucidativo, e especialmente relevante no que toca ao papel da mulher na sociedade, onde passivamente sempre esteve à mercê de todas as circunstâncias que referiu.
Agradeço o Seu importante contributo.
Um abraço

Paulo disse...

Odele,
A esperança que deposita na probabilidade de se encontrar uma cura para o VIH, é de facto impressionante.
Que essa cura apareça e que as crianças tenham todo o tempo do mundo, para esperar por ela e para usufruir dessa grande vitória, pois o que mais me entristece é que as crianças nada fizeram para que fossem contaminadas.
Um beijo e outro para Flávia.

São disse...

Paulo, parabéns pelo te3xto.
É bom que as pessoas assumam a sua responsabilidade face às outras pessoas.
Feliz semana.

Paulo disse...

são
Obrigado pela visita.
No presente contexto, a responsabilidade ou a ausência dela, marcam irremediavelmente a diferença
Uma boa semana.

V.P. disse...

Muito bom o post..

Pensamos sempre que acontece aos outros, mas nunca se sabe o que pode acomtecer e devemos sempre protegermo nos..

=)

sideny disse...

paulo
parabens pelo texto, esta muito bom.
muita informação.
a mim faz-me pena as crianças,que não tem culpa nehuma de nascerem infectadas.
e tambem os jovens que têm a suas vidas logo marcadas. cada vez se vêm mais jovens infectados.
bej

sol poente disse...

Paulo
Toda a vida é um risco e nós temos que saber viver esse risco com a consciência de que é mesmo um risco que estamos a viver.
Digamos que o HIV será um risco acrescido ditado pela sede de emoções tão naturais como a própria vida e tão insensatas como a loucura que é sempre o que há de mais sensato num percurso finito e incerto. Não vamos pois discutir a bondade do comportamento humano nem a validade das opções individuais.
O que importa verdadeiramente não é descobrir o mal mas combater a segregação que sofrem os que já o descobriram. E avisar, avisar toda a gente que há caminhos sem regresso e que há actos cujas consequências não recaem só sobre quem os pratica.
Um grande abraço Paulo.

Paulo disse...

v.p.
Muito prazer e muito obrigado pela visita.
A Sida é de facto extensível a todas as pessoas, não havendo grupos de risco, mas comportamentos de risco. E até pode ocorrer um acidente... E ninguém consegue ser 100% racional durante uma vida inteira.
Por isso estamos aqui, porque aconteceu connosco e porque lutamos para que a nossa história não se repita, em todos aqueles a quem conseguirmos passar a mensagem.
Um abraço agradecido.

Paulo disse...

Sideny
De facto a criança nascer marcada pela dor da SIDA é algo que nos transporta para o mundo da revolta.
Há que sensibilizar os pais, a testarem-se quanto ao VIH na tentativa de evitar a transmissão para o bébé. Hoje em dia isso é possível, francamente possivel.
Um grande beijinho.

Paulo disse...

Sol Poente
Por isso estamos aqui, antes que seja tarde demais e em cada alerta que conseguimos passar, uma vida poderá ser salva.
Quanto a nós, uma sensação de bem-estar reina e faz-nos felizes.
Um Abraço apertado, enorme.

Maria Dias disse...

Boa tarde Paulo...

Então eu vim ler o texto que me indicaste.É, todos corremos riscos sem dúvida alguma.Os homens mais velhos são mais relutantes em usar a camisinha e muitas mulheres inclusive da terceira idade, estão se contaminando com os próprios maridos que por conta da ciência voltaram a ter uma vida sexual ativa.Muitos não acreditam q pegarão a doença chegando a pagar mais caro para uma garota de programa ou mesmo "garotos" de programa para não usar camisinha.Chega a ser absurdo de acreditar mas está acontecendo...No primeiro dia em q estive aqui, li o relato de um rapaz que contaminou a mulher e o que mais me chamou a atenção foi ele dizer que se vc quiser "BRINCAR" com alguém,q ao menos se proteja, para não contaminar pessoas inocentes.Muito boa matéria Paulo...Obrigada por mais esta lembrança.

Maria Dias disse...

Paulo,

O teu post me fez lembrar de um caso q aconteceu na minha família.Não tem muito tempo acho q uns dois anos uma pessoa muito ligada a mim(de minha família) iniciou um namoro.Pois bem...Viveram um ano de paixão como em todo namoro.Bem...
num determinado momento, ela achou q não tinha mais nada a ver com ele e se separaram, e por uns dois meses não se viram...Um belo dia ele a procurou e tentou seduzi-la de todas as formas...Ela relutou de todo o jeito pois estava decidida(o q foi a sua sorte).Este homem havia se descoberto infectado e queria passar para ela o vírus pois temia passar a vida sozinho(acreditem!).Ele era doador de sangue e tinha absoluta certeza.Depois foi descoberto q ele era viciado em drogas e q tb havia contraído o vírus com um travesti(homossexual).É Paulo...Existem pessoas de várias índoles neste mundo e infelizmente muitas só pensam exclusivamente nelas próprias.

Maria Dias disse...

Sabe Paulo...

Este homem fingia ser uma pessoa e era outra.Não tenho nada contra homosexuais(e abomino o preconceito de TODAS as formas) tanto que um grande amigo meu q morreu de SIDA era homosexual, mas deve se ter responsabilidade e preocupação com as pessoas q amamos e mesmo com as que não amamos,deve-se ter respeito com a vida.Desculpe eu me estender tanto mas uma coisa puxou a outra.

Abraços e boa semana pra todos vocês do Sidadania!

Paulo disse...

Maria Dias
Muito obrigado pela sua visita e por tudo o que nos relata. De facto, há pessoas, que estando infectadas, são capazes de tudo, pois se alguém lhes pegou o vírus, não têm quaisquer problemas em contaminar outra pessoa.
Por isso, cabe a cada pessoa proteger-se sempre e nunca acreditar, até que tenha fortes razões para isso, que o parceiro que encontrou, ali está por bem.
O seu testemunho é gritante e agradeço tê-lo publicado aqui, para que todas as pessoas possam verificar que a vida também pode ser mesmo assim, assente nesta realidade.
Muito Obrigado,
Um abraço e um beijo.

ManDrag disse...

Salve!
Seria tão desejável que nos ensinassem a prevenir as consequências dos nossos actos. Seria tão desejável que nos ensinassem a nos responsabilizarmos pelo nosso próximo e por nós mesmos. Seria tão desejável que nos ensinassem a pensar a vida para além do mesquinho avaliar moralista. Seria tão desejável que soubessemos contribuir com igual perdão e amor a todos, sem pré-juizos. Seria tão desejável que elites auto-afirmadas como esclarecidas não mentissem e mantivessem na ignorância milhões de inadvertidas vítimas. Seria tão desejável que os ricos-poderosos não se deixassem cegar pela ganância de enriquecer à conta da infelicidade dos mais pobres dos pobres.
Salutas!

R. Rudoisxis disse...

Olá Mandrag
Uma perspectiva profunda da humanidade, o teu comentário para aqueles que aqui o vieram ler, e tiverem a coragem de parar por algum tempo para pensar e reflectir sobre o mesmo. Infelizmente o desejável é utopia quando se refere a valores humanos e a prova disso é bem visivel e só não vê quem não quer.
Infelizmente e com toda a evolução que a humanidade teve, (e custa-me dizer isto) continuamos a gostar de ver correr sangue como outrora nos circos romanos em que cristãos eram jogados às feras, nos sacrificios humanos de virgens e crianças para aplacar a ira dos deuses ou do empalamento em praça pública e a morte na fogueira.
E tudo isto porquê? Porque continuamos a não aceitar as diferenças.Porque procuramos desesperadamente o poder e o dominio sobre os mais fracos.
Porque cada um quer ser a estrela principal no palco da vida.
Somos imperfeitos por natureza, e nada fazemos para nos aperfeiçoar a cada dia que passa, mesmo com gestos simples como um sorriso e um carinho, para com aqueles que por qualquer motivo são os excluidos de uma sociedade onde a perfeição se baseia no glamour do momento.Um abraço
Raul

Paulo disse...

ManDrag
Muito me honras com a tua visita, pois este espaço é também teu, há já muito tempo, ainda que não o tenhas sentido como teu também.
Muito me honras com a tua visita, pois o valor acrescentado das tuas palavras revelam a eloquência do teu saber empírico a cada dia que passa.
Muito me honras com a tua visita, porque a SIDA é uma causa que podes sem receios abraçar, pois não há perigo de contágio social.
Muito me honras com a tua visita, porque todos aprenderemos muito mais contigo.
Muito me honras com a tua visita, porque me acrescentas e me ajudas a crescer.
Anseio pelo teu Saber.
Um abraço ManDrag.

Paulo disse...

Raúl
Tinha ficado combinado que cada um de nós responderia aos comentários dos seus próprios post`s. :)
Eu sei... Tratando-se do ManDrag não resististe... Entendo-te muito bem... :) pelo valor com que nos acrescenta...
Um abraço Raúl

Mary disse...

Paulo
Venho de longe, de muito longe e tenho sofrido para aqui chegar mas valeu a pena porque encontrei o teu belíssimo texto onde eu bebi forças para continuar.
Um abraço daqueles

Silvia Madureira disse...

Paulo,

Nunca é demais relembrar estas importantes informações que todos nós devemos ter sempre presentes.

Eu não discrimino quem teve comportamentos de risco, nem "aponto o dedo" porque sei que a maioria das pessoas os têm...mas tiveram a sorte de não serem infectados, continuando com os mesmos hábitos e julgando que é sempre ao outro que acontece.

Posso não ter "errado" de determinada forma, mas já cometi muitos erros e é essa consciência que falta a muita gente para evitar o apontar do dedo como se houvessem senhores perfeitos.

beijo

Paulo disse...

Mary

Que felicidade encontra-te aqui de novo... Nem imaginas... Venhas de onde vieres, quero-te sempre aqui "oubiste". A força que aqui conquistas é tal qual a força que nos dás.
Olha, espero a tua próxima visita, que espero seja bem próxima, pois fico sempre tanto tempo sem saber de ti...
Um abraço total, sempre total, para sempre total.
Ad...-te.

Paulo disse...

Silvia
Fiquei muito contente com o seu comentário. Em poucas palavras diz tudo, mesmo tudo.
Muito obrigado pelo Seu comentário que resume e complementa este texto.
Um beijo

São disse...

Venho desejar-te feliz fim de semana.

Paulo disse...

São
Já passei no teu cantinho para te deixar o desejo de um óptimo fim de semana também.
Beijinho