Finjo ter paciência...



Saber esperar é uma virtude, mas também é um facto que quem espera desespera. Finjo ter paciência e acreditar que tudo isto é normal, que tudo isto é mesmo assim...

É indiscutível e inquestionável o avanço da ciência na luta permanente contra a SIDA. Nunca, em outra patologia, se desenvolveram tão rapidamente terapias eficazes para controlar a acção destruidora do vírus da imunodeficiência adquirida, sobre o sistema imunitário.

Nunca, em outra patologia, foram aprovadas tão rapidamente pela Food and Drug Administration (FDA), terapias com o intuito de salvar vidas, para aqueles que não podem esperar, antes que seja tarde demais. Foi necessário acelerar os ensaios clínicos, encurtar as várias fases de teste, para rapidamente fazer chegar aos portadores do VIH, a arma necessária e precisa para controlar o VIH dentro do organismo humano.

As terapias foram surgindo e implementadas de imediato. A sua eficácia foi sendo testada no decorrer do tempo. Os efeitos secundários, muitos deles devastadores, foram aparecendo, para ficar, originando outros problemas de saúde associados, causando patologias sobre a patologia, mas mantendo a vida, com qualidade crescente.

Regularmente surgem novas esperanças, nas expectativas que se depositam sobre novos compostos. No entanto, é comum que os resultados inicialmente promissores, ao ponto de se equacionar até, a exterminação do VIH no corpo do infectado, de um momento para o outro sejam abandonados pela pesquisa, porque algo de inesperado acontece, porque o VIH é matreiro e tem conseguido sempre escapar ao desenvolvimento da ciência, da tecnologia e ao trabalho de anos consecutivos de investigadores científicos conceituados, dispersos pelo mundo, que renunciam à desistência de alcançar a vitória.

Finjo ter paciência e aprendo a esperar... Quando se é portador de uma patologia sem cura, em que a guerra acabará sempre por ser ganha pelo inimigo, é preciso acreditar que tudo isto é normal, que tudo isto é mesmo assim.

As terapias actuais são eficazes e permitem ao portador uma esperança de vida similar à de uma pessoa não infectada. Os efeitos secundários tendem a ser menos tóxicos para o organismo. Muito se aprendeu e se continua a aprender sobre a SIDA e sobre o seu armamentário antiretroviral. Aplaudo de pé as conquistas alcançadas por todos aqueles que permitiram que hoje eu esteja aqui, em carne, osso e VIH, a escrever este texto, em tom de desabafo.

Mas o ser humano nunca está satisfeito e quer sempre mais. O portador do VIH é também um ser humano e quer sempre mais. Essencialmente, quer a exterminação definitiva do VIH e finje ter paciência para saber esperar. Na guerra, não basta o inimigo adormecido, sob controle. O inimigo quer-se morto e enterrado, para sempre. Só assim, se respirará de alívio.

Finjo ter paciência assente na fé e na esperança. Para mim e provavelmente para milhões de infectados em todo o mundo, amanhã a cura da SIDA poderá ser uma realidade e queremos estar vivos para beneficiar dela, custe o que custar. Cada dia que passa é um dia de atraso, é mais um dia de medicação, de expectativa pelo alcance do tudo, na estrada do quase nada.

Finjo ter paciência e acreditar que tudo isto é normal, que tudo isto é mesmo assim...

24 comentários:

Silvia Madureira disse...

Paulo:

Que tenhas sempre essa paciência porque ela é necessária não só para ti, mas para todos aqueles que sofrem de patologias complexas.

Esperar, com qualidade de vida, com um sorriso nos lábios e sem esquecer que apesar de um virus qualquer existe vida e que deve ser bem vivida.

Sei que quem espera desespera, mas espero que o teu desespero seja leve e que viva de pequenos momentos, porque existe um grande momento à tua frente que é este que vives agora.

beijo

Paulo disse...

Silvia
PARAR É MORRER!
Há que ter sempre paciência ou até ir finjindo que se tem paciência, para ir vivendo, pois tal como dizes, existe um grande momento à minha frente, este, em que vivo agora.
Um sorriso nos lábios e...
Deixo-te um beijo.

Fatyly disse...

Paulo
li e reli e escrevo-te debaixo de lágrimas que mal vejo o teclado. Levantei-me várias vezes para respirar fundo porque:
Seria cretina se te dissesse que não finjas.
Seria cretina se te dissesse que tudo isso é mera especulação da tua cabeça
Seria cretina se te dissesse que tenhas paciência porque queremos sempre tudo "para ontem"
Seria cretina se te dissesse que não tens razão...

Mas não sou cretina ao dizer-te:
- quando estiveres de coração apertado como quando escreveste este texto, saí porta fora e dá voltas ao quarteirão, porque enquanto o fazes e perante o que vês poderá desviar-te o pensamento e eventualmente se pisares numa poia de cão:) enquanto refilas e limpas não pensas no problema.
- quando estás no trabalho ficas distraído
- quando tomas um café com amigos ficas distraído

e peço-te sempre e por favor que quando estiveres "apertado e a pedir colo" que escrevas o que escreveste, uma das melhores formas de desabafarmos.

O conformismo e aceitação é a forma de fazermos um luto saudável de algo que nos atinge mas até isso e para isso existe um tempo.

O normal é desabafarem e serem aceites e amparados, mas até nisso quanto anormalidade há nas sociedades actuais.

Acredita que a ciência está perto, acredita e aprende vivendo um dia de cada vez desviando o pensamento. É dificil, mas nada impossível.

Dou-te colo, como sempre dei e recebi nos momentos dificeis da minha vida e deixo-te uma frase que disse a um meu amigo que já partiu: aprendi tanto contigo quando ninguém acreditava em ti e inclusivamente te puzeram na berma do prato. Por isso aplaudo-te de pé!

Aquele xicoração a ti e a todos os que sofrem de patologias incuráveis e aos que abraçam causas em prol de uma sociedade menos cretina.

M. disse...

Há tempos li um livro em Francês cujo nome já não recordo e que tinha uma passagem sublime com uma citação de um seropositivo que em francês soa bem melhor e que traduzia mais ou menos o seguinte: "Há dias em que falo da sida como uma cruz pesada de betão que transporto com enorme sacríficio e que me rasga as costas até ao sangue. Noutros dias, tomo-a como uma companheira para a vida e graças a ela, as coisas e a existência me parecem mais extraordinárias do que nunca. Sida, meu calvário. Sida, meu amor, tenho contigo uma relação pessoal e única que não tenciono deixar escapar".

Embora não conheça a realidade da Sida em mim própria, tomei esta citação como minha, quase como um complemento do meu dia a dia. A paciência... olha, duvido que não exista ser humano que não a finja. e duvido que exista ser que a tenha ;)
Esperança sim, acredito que a cura para a Sida e a erradicação do vírus ou simplesmente a sua tranformação num vírus não patogénico está muito próxima. Mas não penses demasiado nisso que a angústia da espera é prescindível empreende essa relação contigo próprio porque tu tens sem dúvida nenhuma, a Força dentro de ti.

Beijo.

Paulo disse...

Fatyly
Obrigado pelo teu comentário, sempre nobre, sempre imenso, sempre reconfortante.
Tens toda a razão... nos momentos de aperto há que distrair, há que sair porta fora, onde encontraremos a vida, no seu percurso exacto e diário.
Existe um tempo para a aceitação e para o conformismo. Esse tempo, ora parece ser muito, ora parece ser tão pouco, quase nada... Depende daquilo que queira fazer de mim, nos exactos momentos.
Escrever ajuda-me a desabafar e faz-me muito bem. Saber que me vais ler é sempre a mais valia que obtenho.
Que a ciência esteja perto, para amanhã, se já não possível ser hoje.
Fico feliz por aprenderes também comigo, quando me encontro na borda do prato, ainda que e apenas por breves momentos.
Um xi-coração apertado e bem hajas por seres quem és.

Paulo disse...

m.

"Há dias em que falo da sida como uma cruz pesada de betão que transporto com enorme sacríficio e que me rasga as costas até ao sangue. Noutros dias, tomo-a como uma companheira para a vida e graças a ela, as coisas e a existência me parecem mais extraordinárias do que nunca. Sida, meu calvário. Sida, meu amor, tenho contigo uma relação pessoal e única que não tenciono deixar escapar".

Não tenho palavras para agradecer o comentário que me deixas. Senti um arrepio ao ler este comentário, com o qual me identifico na totalidade. Incrivel, mas incrivel mesmo.

Obrigado pelo testemunho.

Beijo abraçado, sempre...

Arnaldo Reis Trindade disse...

Paulo

passe no meu blog.

Paulo disse...

Arnaldo
Amigo, para sempre amigo.
Já fui ao teu blog e não tenho palavras suficientes para te agradecer.
Arnaldo, és o meu "irmão" de quem gosto muito, muito mesmo.
Abraço terno.

Silvia Madureira disse...

Paulo:

Admiro-te.

Quantas vezes por motivos mais leves me senti assim...

São momentos que fazem parte de um grande momento que á a nossa existência...

Nada mais a dizer...

Admiro-te, assim como todos os que escrevem aqui.

beijo

Coragem disse...

Nem sempre as palavras que temos, são suficientes para expressar tudo o que sentimos...
Hoje sinto-me fraca em palavras, para te dizer o que senti ao ler-te.

Deixo-te um beijo sempre sincero e o melhor...

D'(a Vida Que a Gente Leva)
"Fatima Guedes"


Não tenho medo de nada
porque vivo minha vida
como quem sorve uma taça
de preciosa bebida
saboreio lentamente
cada hora, cada dia
nas coisas que tão somente
fazem a minha alegria
Eu te dou um forte abraço
eu canto
eu digo um agrado
tudo pra ver teu sorriso
o teu sorriso é sagrado
e, às vezes, apenas isto
é luz que dissipa a treva
A gente leva da vida, amor
a vida que a gente leva

Paulo disse...

Silvia
Obrigado. É a palavra que encontro para te agradecer.
Admiro-te também e conto sempre contigo aqui. Fazes-me falta.
Beijo

Paulo disse...

Coragem
Podes sentir-te fraca em palavras mas és sempre forte nos sentimentos que nos transmites.
Gosto muito de te encontrar aqui, sempre.
Obrigado pelo poema. É lindo, em conteúdo.
Beijo sempre sincero

sideny disse...

paulo

não deve haver muita gente que tenha paciencia,seja ela por doença ou por outra coisa qualquer.
ha tantos outros problemas.

e eu ate te comprendo e como.
mas olha hoje por acaso estava num dia desses. fui dar uma volta aliviar a cabeça.
conta comigo para o que precisares

e força paulo temos de ser fortes e continuar a viver por muito que não tenhamos paciencia.
um beijo

Paulo disse...

Sideny
Obrigado pela tua disponibilidade. Contarei contigo, sim... da mesma forma como poderás também contar sempre comigo, para o que der e vier.
Um beijo

SILÊNCIO CULPADO disse...

Paulo
Quem fala assim não finge: vive, ama e sofre em plenitude. E quando nos entregamos com tal força, uma restéa de sol será sempre visível entre a angústia e o medo.
Porém ainda que a ansiedade te domine lembra-te que estás vivo enquanto muitas pessoas que não se sentiam ameaçadas por nenhuma patologia grave vão morrendo todos os dias. E tu continuas e continuarás porque eu acredito na tua fé e perseverança. E acredito nos avanços da medicina. E acredito no calor humano que espalhas com as tuas mensagens.
Paulo, deixa-me abraçar-te.

Paulo disse...

Lídia,
Amiga, para sempre amiga.
Abraça-me porque te abraço também.
Sim, estou vivo, ansioso porque quero continuar a viver. Quero acreditar no que acreditas e quero também acreditar na fé e perseverança que me sustenta a vida. Como dizes sempre, a barra é pesada, mas transporta-se, pelas mãos, ora trémulas ora firmes, apoiadas no calor humano que espalho e que recebo de ti também e em especial.
Abraço apertado.

f@ disse...

Ampulheta!!!???
Vou ali e já volto... só vim mesmo deixar beijos e uma semana feliz... nas nuvens

Paulo disse...

F@
Uma ampulheta é um relógio de areia de dois reservatórios cónicos que comunicam entre si pelos vértices.
Enquanto vais e voltas o tempo passa...
Impressiona-te ou... pressionam-te?
Uma semana feliz para ti também...
Beijinhos nas nuvens...

Silvia Madureira disse...

Estarei.

Arnaldo Reis Trindade disse...

Paulo, obrigado pelo texto no meu comentário, espero poder me tornar um terço do que és e que no mínimo me torne metade do que dizes que sou.

Abraço terno amigo.

Paulo disse...

Arnaldo
Eu é que me quero tornar num ser humano desenhado também na tua imagem. Já que não o pude ser aos 19 anos, sê-lo-ei agora, com 38.
Um abraço terno e sempre amigo.

Odele Souza disse...

Paulo,
Após ler teu texto e os comentários, deixo-me ficar um pouco a pensar. Quanta gente boa e amiga estão contigo Paulo. E que coisas bonitas eles escrevem pra você.

"É mesmo assim..." Paulo, o ser humano quer sempre mais, faz parte de nossa natureza querer sempre mais da vida. E quando esse mais demora a chegar, é difícil ter paciência.

Um beijo.

Paulo disse...

Odele,
Junto a mim, quero sempre gente boa e amiga, pois esforço-me sempre para o ser também e para saber retribuir a cada momento, a amizade que me oferecem.
Um beijo.

um Ar de disse...

Não sei muito bem porque parei aqui.
E em boa hora o fiz!...
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[Criam-se laços com palavras, de vez em quando...]
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Cada vez mais, viver é trocar vírus com os outros, também... quando não sabem, quando não os imaginam...
Com cura ou sem ela, viver é preciso, mesmo! E só faz sentido com os outros:)
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Não concebo a minha vida dentro de uma redoma, ou a do meu filho, ou a tua, ou a de outrem!
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Desejo-te um Bom Ano, com aqueles que te amam e que tu amas.
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Por aqui, continuarei a pensar que nada, nem ninguém me é indiferente.
E que prefiro assim!
E que preciso assim!
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[Beijo...@]