Os primeiros tempos de infecção

Já sabia que estava infectado, pois a noticia como referi num post anterior tinha-me sido dada de uma maneira extremamente cruel, que envergonha toda a classe médica ou pelo menos a parte que sente compaixão pelos seus doentes e os trata como seres humanos que merecem respeito.
Tinha voltado ao hospital acompanhado da minha mulher, pois ela necessitava de tirar sangue para análises com o intento de se saber , se tinha sido infectada por mim.
Á saída encontrei-me com a médica que me acompanhou durante o internamento.
Era extremamente humana e lembro ela ter-me dito que teria de iniciar a medicação de imediato. Perguntei-lhe se eram injecções (coisa que eu detesto) ao que ela respondeu que não, que eram comprimidos e numa de cumplicidade saudável disse que era uma trabalheira aborrecida pois era uma grande quantidade e não podia falhar as tomas.
Disse-me também que tinha que voltar ao hospital para saber o resultado dos testes feitos à minha mulher, e para lhe ir telefonando para saber quando os mesmos estavam prontos para depois então ir de novo ao hospital, pois não davam os resultados pelo telefone.
Alguns dias depois telefonei-lhe a saber dos testes, e ela vendo a minha preocupação disse-me que os testes tinham dado negativos e que a minha mulher não estava infectada. Foi um alivio para mim e um fardo enorme que me tirou de cima, pois nunca me iria perdoar se tivesse infectado a minha companheira. Aconselhou-me a que ela fizesse testes passados seis meses e depois regularmente de ano a ano, o que cumpri à risca e até hoje os testes sempre deram negativos.
Nesta altura eu estava extremamente confuso, não sabia absolutamente nada sobre a doença a não ser que a SIDA mata, e depois de ter recebido a noticia da forma como a recebi e a frase do médico ou carrasco (não sei que nome lhe devo atribuir) que me disse “ Tenho um doente, ou melhor tive pois já morreu , que não contou à família”, aumentou a minha convicção de que iria morrer num período mais ou menos breve.
Cerca de dois meses com febres altas e perto de três semanas internado no hospital, deixaram as suas marcas pois estava muito debilitado fisicamente, e psicologicamente então nem se fala.
Passava os dias fechado no meu quarto, ás escuras reflectindo sobre o meu passado e tudo o que de errado tinha feito na vida. Tinha iniciado a medicação e as reacções do meu organismo á mesma foram bastante violentas, eram os vómitos, as diarreias e um mau estar geral . Não conseguia raciocinar normalmente e o meu pensamento estava preso à ideia de uma morte anunciada que não iria levar muito tempo. Para as tomas dos três tipos de medicamentos, que tinha de tomar uns de 8 em 8 horas outros de 12 em 12, fiz um horário, que até hoje conservo colado na parte interior da porta da mesinha de cabeceira e que fazia com que de a cada quatro horas tivesse que tomar a medicação. Como queria cumprir à risca as tomas pois queria prolongar o meu tempo de vida até onde me fosse possível, o despertador para me acordar ás quatro da manhã era uma ferramenta indispensável. A toma das quatro da manhã e o medo de a falhar não me deixavam dormir convenientemente, e era a que mais me custava. Só mais tarde é que soube que podia misturar os comprimidos e ter um horário mais conveniente sem a toma das quatro da matina.
A morte deixou de me preocupar nesta altura, e encarei este acontecimento como um percurso normal de vida. A minha preocupação eram os meus filhos que ainda não estavam preparados para a vida. A mais velha estava no 11º ano do secundário e o mais novo creio que no nono ano. Um dia ia no carro com a minha filha e comentei o facto da minha preocupação de não os poder ajudar ao que ela retorquiu para não me preocupar, que eu não iria morrer e que se tal acontecesse, nem que tivesse de ir lavar escadas ela cuidaria do irmão mais novo e da mãe. Pequenas frases que parecendo ter pouco valor, nos tiram um peso de cima ,especialmente quando temos a responsabilidade de gerir o bem estar de uma família e somos a única fonte de receitas da mesma.
Acho que foi por esta altura, que decidi reagir e lutar contra a morte anunciada, em vez de estar à espera que a mesma acontecesse.
Era preciso tomar uma acção e procurar quem me pudesse ajudar. Saber onde poderia obter essa ajuda era o mais difícil, mas teria de a procurar. A primeira acção foi pegar na lista telefónica e procurar números de tudo o que fosse relacionado com SIDA.
linhas de apoio telefónico, associações e tudo o mais. Este foi o meu primeiro passo na luta pela sobrevivência. O segundo passo seria começar a criar objectivos de vida a curto prazo e o terceiro passo aprender tudo o que pudesse sobre a doença e encontrar outras pessoas que tivessem o mesmo problema.
Sobre estes primeiros passos e como foram dados, escreverei outros textos que vou publicando conforme os vá escrevendo.
Passaram dez anos, e recordo este período com um sorriso e penso como era pateta em pensar daquela forma e em ter tantos medos. Hoje essa reflexão leva-me a compreender os recém infectados e os seus medos. É para eles que escrevo o meu percurso de vida com o HIV, para minimizar de alguma forma aquilo que estão passando e que eu passei no passado. A SIDA e o HIV estão presentes a todo o momento na minha vida, e continuarão a estar até ao fim dos meus dias. É uma causa para a vida da qual não abdico, e embora pareça uma idiotice dizê-lo, acho que devo estar grato ao HIV/SIDA , por me ter feito ver que a coisa mais importante na vida não é o nosso bem estar pessoal mas sim o bem estar de todos os que nos rodeiam. É preciso ter uma razão válida para viver e pô-la ao serviço dos outros ou a nossa vida não terá significado e a minha é a SIDA e todos aqueles que vivem com ela até ao fim dos seus dias.

5 comentários:

dianamãe disse...

Gostei da forma como escreves. coerente, de coração, e real, tão real esta tua história.

Tens uma grande companheira, que se mantém a teu lado, mesmo depois da traição.

Conserva-te assim, lúcido, verdadeiro e humano.


até breve
ah já agora venho do sómaisumbocadinho, foi a doce e amiga Manuela quem me fez vir até aqui ler-te.
Todos nós podemos aprender um bocadinho mais todos os dias.

Manuela disse...

Ru2x,

Já tenho o início desta tua grande história no meu blog.

Já disse anteriormente que fazes serviço público. Não tinha ainda dito nada relativamente à tua mulher, até porque não sabia se ainda o era ou era ex. Não tenho palavras para qualificar o papel dela, ao teu lado, nessa situação.

Tens consciência do quão grandiosa ela é, não tens?

Tudo do melhor para vocês os dois (mais os filhotes e o neto)

epulis disse...

ola!
li o primeiro texto no blog e so mais um bocadinho e fijei totalmente perplexa com o k la estava...
tive de ca vir pa ler o que mais existia e encontro.m aind a pensar na forma como foi dada a noticia!! como e possivel existir axim pexssoas...e o pior medicos com este nivel!
lUTADOR e o adjectivo que melhor caracteriza a sua atitude!

espero que tudo corra bem!

Carla disse...

Esta tua partilha deixou-me com os olhos cheios de lágrimas. Pelo lado positivo com que vês as coisas, pelo que a tua filha disse, pelo amor que sentiste da parte da tua família e pela forma como encaras a tua vida, cheio de esperança. Obrigada. Espero que continue tudo a correr bem e que o teu exemplo ajude muitas outras pessoas que neste momento estão com medo. Beijos.

alkapone disse...

Ou Rux2 , estas nossas mulheres sao realmente umas mulheres com M grande tu tb sabes a minha historia e rux2 a tua como a minha e outras mais mulheres merecem mesmo tudo de nos"que lhe compramos ultimo modelo da mercedes" :).Olha so mais uma coisa estou outra vez telefone cortado estou a mudar-me nesta altura tamos do hotel bye abracos .Elas sao o maximo