Ainda não cheguei...



Vem aí mais um Natal, sem se perceber como, mas vem, mesmo em tempo de crise. Toca a embarcar novamente no espírito desta época, quem o conseguir. Ou quem não se sentir como uma criança a perguntar ao Santa Claus ou São Nicolau: “Acreditas em ti próprio?”, questionando-se sobre a existência do Pai Natal. Deixar de acreditar no homem de fato vermelho e barba branca não é nenhuma tragédia. O que é trágico é relembrá-lo propositadamente sob a forma de riqueza excessiva e de luzes que ofuscam de tal maneira que impedem o exercício da bondade humana precisamente na altura em que se devia acentuar. São Nicolau ou o Pai Natal tornaram-se há muito meros instrumentos de falsa ternura comercial no meio das tempestades que se anunciam por todo o lado: conflitos sociais, greves e protestos, despedimentos, falências, o aumento enormíssimo do custo de vida, a desaceleração económica, tudo tão evidente e irrefutável. Até o tempo anda estranho, ou porque não chove da mesma forma ou porque chove demais, ou porque faz um sol desgraçado nos dias errados. Bem gostaria o mundo que o Natal fosse irreal em lugar de ser o que todos os dias desfila diante dos nossos olhos, seja nas ruas ou nos noticiários… Paz na Terra? Pois sim…
Nos lares e restaurantes apinhados de iguarias que no dia seguinte irão para o lixo, vai acontecer como se nada se passasse e as extravagancias da época aparecem cobertas da neve artificial que maravilha aos olhos e que depois de derreter mostra o mesmo cenário de antes em que pouco ou nada se fez para que houvesse um pequeno Natal para todos. Não tem mal que iluminem as cidades e as casas para celebrar a quadra. Tem mal é que noventa por cento dos presentes e iguarias sejam puro desperdício destinado aos contentores, tem mal é que o tempo de crise não seja aproveitado para gestos gratuitos em lugar de objectos caros. Tem mal quando muitos que afirmam preocupar-se através de discursos que parecem vir de parte nenhuma virem a cara para o lado ao mesmo tempo quando os televisores mostram casas arrasadas, cidades em chamas, catástrofes e cenários de fome e pobreza comprazendo-se na fingida ingenuidade por uns dias. E o tempo não é de ingenuidades, é de graças. De bondade.
Detesto o Natal. É o que digo sempre e quase que a contrariar essa postura, ponho em todos os blogues do Grupo Sidadania, a decoração alusiva à quadra. Arvores de natal com luzes a piscar e uma velinha vermelha acesa decorada com folhas de azevinho.
A hipocrisia reinante por parte dos governantes, dos autarcas e de todos os intervenientes neste show de bondade e amor ao próximo que se manifesta apenas nesta época e não passa de propaganda eleitoral, ou marketing de promoção de imagem e que sempre abominei, já não é o que era.
A crise chega a todo o lado, mina toda e estrutura de uma sociedade e consequentemente muda certos pensares ao comum cidadão e sidadão que sou. Sempre fui contra o consumismo exacerbado que é vivido nesta época, contra os desperdícios de comidas e brinquedos que no dia a seguir faziam montanhas de lixo junto aos contentores, a comida por estar estragada e os brinquedos partidos.
O ritual de abrir presentes, o amontoar de caixas e de papel rasgado que a seguir tinha de ser rapidamente limpo, para se poder circular no espaço onde foram distribuídos os brinquedos, limpeza essa que por vezes misturava pacotes mais pequenos não abertos que seguiam directamente para o contentor do lixo.
Uma ida à cozinha onde a mesa estava posta com os fritos, os arrozes doces, aletrias e afins que se iam provando para juntar ao bolo alimentar já no estômago, constituído pelo bacalhau em pratos cada vez mais elaborados com natas e outros aceleradores de fermentação, que à mistura com vinhos e licores e mesmo refrigerantes, faziam uma mistura explosiva em que o pai natal desaparece de cena e todo o mundo começa a chamar pelo Gregório.
É a ironia da vida e desta quadra.
Hoje sim, visto a casaca de “Novo Pobre” , tomo a iniciativa para tirar a vergonha de tantos e tantos portugueses que teimam em não a vestir por vergonha, mas quando ela já é uma realidade em suas vidas.
Currículos, com licenciaturas, mestrados e outros graus académicos, não são necessários pois há vagas para todos. Quem procurava um tacho tem agora a sua oportunidade de ouro para o ter. Um tacho vazio, mas um tacho. Tacho conseguido sem a ajuda das poderosas “cunhas”. Afinal temos o que desejávamos ou seja acabar com as cunhas e ter um tacho.
Viva a eficácia dos governantes que nos deram o que desejávamos. Muito obrigado a vossa excelência senhor presidente (de qualquer coisa) por este jantarzinho, na cozinha pois havia falta de cadeiras na sua mesa. Obrigado pelo presente ( um tupperware da loja dos trezentos), que vou encher de comida para amanhã. Sempre são dois dias em que não terei de ir para as bichas de distribuição de alimentos dos profissionais da caridade nas igrejas, ou ir inscrever-me no banco alimentar.
Directamente de um país, em que o povo está sempre feliz, que gosta de agitar bandeirinhas seja a quem for, para festejar o que quer que seja, envio-vos os meus votos da felicidade, que ainda não consegui entender nesta quadra, mas isso é devido a uma deficiência que tenho na aprendizagem de me moldar ao presente estado de coisas.

12 comentários:

MARIA disse...

Raúl.....
Antes de mais : é Primavera!
Que bom saber que está bem, sempre com a escrita na ponta da boa e assertiva crítica.
Deixou sem notícias os seus amigos por um tempo ainda considerável...
Mas agora que fala de natal, já nada disso faz mal.
:D
Rimei ...
:D
Para mim o Natal é por essência o que é o Sidadania : generosidade, solidariedade, boa vontade e compreensão mútua entre as pessoas, numa única palavra, preocupar-se com os outros, amar...
Nem sempre acontece em dezembro e especialmente a dia 25 de dezembro, mas quando acontece, ainda é Mágico e Milagroso.
Como foi agora.

Xi... tive tantas saudades dos seus postes.

Um beijinho e que nunca na sua vida falte natal...

Maria

gaivota disse...

onde andas, raul? nesse país de encantamentos e bandeirinhas...
uma breve chegada com cheirinho a natal, pelos vistos!
sendo assim, um feliz natal para ti
beijinhos

Fatyly disse...

Aqui vai uma Carta de Amor...Ridícula, pois então:

Bom dia amigo Raul
Faço votos que esta carta te vá encontrar mais alegre junto de todos os teus. Por aqui tudo bem, mais ou menos e assim-assim.
Li e reli a tua carta e fizeste-me pensar. Tens razão no que escreves, mas achas que tu ou eu podemos mudar o mundo? ou vá lá até confinados apenas a Portugal? Claro que podemos até onde chegam os nossos braços, abraços, sorrisos e gestos.
Não sou, nem nunca fui consumista nata e adoro o Natal. Não suporto ver os programas televisivos, mas quem me garante a mim que tudo o que fazem direccionados a doentes, internados, órfãos..não é um único momento da vida que recebem uma prenda? Calma, assenta-te aí sff. Não deveria ser assim e não entres nesta quadra com tanto azedume, porque acabas por não aproveitar o calor humano dos que te rodeiam. Da mesma forma se não te apetece desejar o que todos desejam nesta altura, mais vale não fazer do que fazer como frete.
O país está mal, mas também temos coisas boas, fazem-se coisas boas, distribui-se coisas boas, colegas de profissão de costas voltadas reúnem-se num almoço e já vi num flash mudarem de postura e embora eu pratique o espírito de Natal 365 dias ao ano, pelo menos fico contente por quem só se lembra dos outros nesta quadra, mas lembram-se. Mas não tenho poderes mágicos para resolver tudo e vou resolvendo o que posso. Mediante toxicodependentes que andei com eles ao colo, AMAR, GOSTAR, ACARINHAR E AJUDAR é também dizer NÃO E BASTA, chega, não queres ser ajudado vai à tua vida e aguardar que voltem, porque esse mundo é feito de chantagem emocional, famílias destruídas e não poupam nada nem ninguém. Quantos tentam o suicídio? sei que são os químicos que falam mais alto, Natal? não existe mas alguma vez eu digo aos pais deles dêem amor, ajudem mais...qual quê? de rastos e com vários AVC em cima, olhos cheios de mágoa digo apenas...tratem-se, não sois culpados pela opção de vida dos filhos, olhai por vós e ponham gelo no vosso coração. Sou cruel? não meu amigo sou realista e dou apenas um prato de comida quando me pedem.
Corrupção e política, política e corrupção...posso fazer alguma coisa? Posso e foi com alguma chinfrineira e denúncia, não pagar 10 euros ao fp que me pediu para eu ter uma simples fotocópia numa Repartição de Finanças.
Desemprego, pois claro, mas ando eu há meses a tentar saber dos 600.000 quantos estão mesmo desempregados, porque destes quem recebe o fundo de desemprego, rendimento mínimo e reinserção social? É que quem recebe, desculpa lá mas não considero "desempregado", para mim desempregado é quem não recebe NADA!!!! É pouco? claro, mas também eu sofri uma guerra, perdi a casa alugada que tinha, passei muita fome e rumei a um futuro, que futuro? não sabia. Em vez de andar no nham, nham LUTEI e muitoe venci. A minha reforma é pequena, faço tudo para que chegue, mas conheço muitos e muitas...que não precisam e comem de borla, têm mercearia de borla e se as contas bancárias fossem visíveis, a surpresa faria com muitos ficassem de queixo caído.
Falo o que sei e sei mesmo e vi durante 32 anos. Crise? há anos que a temos ou já te esqueceste que em 86 ninguém recebeu o subsídio de Natal que reverteu a favor das contas públicas? Não sendo funcionária pública, a mim foi metade e ainda guardo ali aquele "bilhete" que um dia ainda o hei-de a oferecer ao "Zé Pantufa", não sabes quem é? mas sei eu e hoje só arrota postas de pescada.

Não deveria haver fome, guerras e tudo isso, mas sempre houve (a nossa história é horrível e de santos nada tínhamos), há (basta estar atento) e haverá (não sei, posso morrer hoje e amanhã estarei noutra guerra).

Beijos miúdo lindo lança daí um sorriso, porque se pudesse dava-te um gorro dos que fiz para veres o meu espírito natalício.

Fiquei feliz pela tua carta, desejo para ti e todos os teus Umas Festas Felizes e cuida-te!

sideny disse...

Ola Raulito

Ja tinha saudades de te ler.

Desejo-te um bom Natal para ti e para os teus.

Quer gostes ou nao.

Beijocas e tudo de bom para ti

Maria Dias disse...

Saudades daqui!Saudades de vc!Passando para te desejar um ano novo com saúde equilibrada e muita força na tua caminhada!

Feliz Natal!

Abraços

Maria Dias

Maria Dias disse...

Ah obrigada pelo presente de sentir a tua presença!rs...

Biby disse...

Caro Raul!
Fico feliz por dares noticias. Mais um post excelente. Tens razão em tudo o que descreves.
Mesmo sabendo que não gostas do Natal desejo-te Festas Felizes e boas entradas em 2010.
Beijinhos
BIBY

São disse...

Para ti e para quem amas um Natal sereno e com prendas muito bonitas, e que 2010 seja bem melhor do que 2009!

Um abraço.

gaivota disse...

há-de chegar poisado nos cavalos,,,
é assim , e assim será!
beiinhos

Maria João disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Maria João disse...

Raul

Chego atrasada, mas chego.
Desejo-te tudo o que se deseja nesta quadra. Não sou diferente e aprendi que apesar de o desejar todo o ano, nesta época devo expressa-lo assim, para que manifestamente se saiba que é o que mais quero.
Sabes, acreditei até muito tarde que o Menino Jesus vinha de madrugada pela chaminé, deixar-nos um presente e cear à nossa mesa. Hoje, sei que não é assim, na verdade. Mas a magia da simplicidade de um menino que se dá humildemente, repartindo-se por todos... nisso ainda hoje acredito.

Um beijinho com um laço e...
volta!

Ana Martins disse...

Caro Raúl,
Feliz Ano Novo e que o ano de 2010 lhe traga tudo o que de bom houver.

Beijinhos,
Ana Martins