A SIDA DE ONTEM E A DE HOJE

O mundo não pára e a ciência continua a procurar novas descobertas e novos produtos que aceleradamente vêm parar às mãos dos consumidores e geram mais dinheiro, para mais descobertas e mais produtos.
A SIDA de há vinte anos e o seu tratamento seguiu esta evolução, da ciência e novos medicamentos vão sendo desenvolvidos. Actualmente já não é o que era e as quantidades astronómicas de comprimidos que se tomavam e que assustavam aqueles que ouviam falar dos então famosos coqueteis de diversos medicamentos.
Há doze anos, quando comecei a minha medicação, ainda era algo complicado tinha de acordar de quatro em quatro horas para tomar a medicação e era o despertador sempre a funcionar, pois a ignorância sobre os medicamentos e sua sobre vida era total e as tomas tinham de ser feitas com uma precisão de quase ao minuto. Depois a coisa passou a ser mais simplificada com 3 tomas diárias e agora estou com duas tomas diárias e este regime já me dá autonomia para fazer a minha vida normalmente sem grandes incómodos.
O desenvolvimento foi tão grande que actualmente é possível fazer uma terapêutica eficaz com apenas um comprimido por dia, isto para aqueles que não tem complicações de resistências do vírus a alguns medicamentos.
A transmissão do vírus, também evoluiu em conhecimento e hoje é reconhecido que pessoas infectadas e que tenham cargas virais indetectáveis por períodos superiores a seis meses não são agentes infecciosos. Com uma certa cautela e porque a SIDA continua a ser um presságio de morte continua-se a recomendar a utilização do capacete em todas as relações sexuais.
Tentativas de trazerem de novo a SIDA à ribalta, com campanhas como a última que mostram a agonia dos infectados parecem não ter produzido qualquer efeito. O que realmente passou para a população é que a SIDA já não mata, que é tratável e agora as máquinas de marketing das farmacêuticas apresentam o tratamento com uma simplificação total em que um comprimido ao dia basta para tratar a infecção.
Tudo se moderniza e desenvolve e isso acontece igualmente com a SIDA. Originalmente um factor de descriminação e estigma, que ainda se mantém por uma grande parte da população pouco informada que entre o medo e a ignorância escolheu rejeitar, descriminar, estigmatizar e excluir as pessoas infectadas. Isto no que se refere ao estereotipo convencional do cidadão comum. Mas como nem todos seguem os padrões aceites como “standard” há outra parte da população que acha que a SIDA é a doença da moda. O desenvolvimento das terapias e anúncios de que um comprimido por dia trata a SIDA, fizeram com que esta passasse a ser um mal menor.
Embora pareça algo de loucos para a maior parte dos leitores e para mim mesmo, há quem deseje ser infectado para se sentir entre iguais e orgulhosamente poder dizer “Sou seropositivo”. Há uns anos li que nas Américas havia festas em que havia sexo sem protecção e nas quais havia pessoas que desejavam ser infectadas porque se achavam rejeitadas no meio das comunidade seropositiva. Nunca escrevi sobre o assunto pois pensei que era mais uma americanice e que estaríamos livres disso, no entanto estava enganado, pois li há tempos de uma festa desse tipo que teve lugar em Lisboa.
Confesso que fiquei chocado com esta notícia por vários motivos. Acho que tudo o que seja feito para desmistificar os reais perigos da SIDA é positivo desde que não passe a ideia de que a doença é algo simples sem implicações de maior. Sendo seropositivo e sem hipóteses a curto médio prazo de deixar de o ser, porque a SIDA ainda não tem cura, preocupo-me com o aumento do numero de infectados e consequente aumento nos custos para o estado com as medicações retrovirais, pois se em casos mais complicados certos medicamentos já têm de ser arrancados a saca-rolhas e em processos complicados, devido às politicas economicistas das administrações hospitalares, como será no futuro a aquisição de medicamentos se esta nova moda se vulgarizar.
Anunciam qualidade de vida, simplificação de medicações e fazem crer que as dezenas de comprimidos dia são coisa do passado. Será esta a verdade?
Dissecaremos este tema no próximo texto a publicar no “Sidadania Dois” logo que a nossa disponibilidade de tempo nos permita.

9 comentários:

sideny disse...

Raul
E verdade também li isso, fiquei parva, sera que existe ainda pessoas tão estupidas e ingnorantes
ao ponto de brincarem com a sua vida.
Com uma doença que não tem cura.
Esta na moda? estupidos.
Quanto mais conheço as pessoas mais gosto dos animais.
beijocas

calamity jane disse...

Bom dia! Não sou "da casa" mas acho que isto é do interesse dos autores e frequentadores deste blog. Porque a discrimição tem de ser denunciada!

calamity jane disse...

perdão, a discriminição

M. disse...

Barebacking a entrar na moda em Portugal não representa a evolução das mentalidades mas a continuada ignorância sobre os efeitos e consequências da doença. Infectarem-se propositadamente é a maior estupidez e egoísmo que se pode achar. Podem dizer que o problema é deles mas a verdade é que não o é apenas. Há custos a vários niveis para além do abalo que sofrem os que os rodeiam além dos próprios infectados. Essa gente precisa de um curso intensivo ministrado por quem sabe mostrar a realidade da Sida e dos seus efeitos. E capaz de lhes incutir o minímo de juízo nas cabecinhas..


Um beijo

Hermínia Nadais disse...

Ói! Novidades por aqui, e para bem. Gracias!...
Força amigões! É de pessoasa corajosas que o mundo precisa... de vós todos, sois uns amores. Beijo

Biby disse...

Olá Raul!
Comentei recentemente com uma colega da area do VIh este tema e ela referiu-me que têm aumentado os pedidos de testes VIH entre homosexuais muitos jovens. Alguns testam-se de 6 em 6 meses o que nos leva a pensar que andam a ter comportamentos de risco apesar do aconselhamento pré e pós teste. Tambem são frequentes frases do tipo "tenho muitos amigos infectados que estão muito bem e fazem uma vida normal apesar de infectados". Durante as minhas entrevistas tive oportunidade de falar com vários homosexuais e pude constactar que os que tomavam mais precauções eram aqueles que assitiram á morte e sofrimento de amigos na dec de 80. Estes têm real consciência da gravidade da doença.
O fenomeno do bugchasing e do barebacking deveria ser estudado em Portugal e deveriam ser implementadas campanhas de prevenção adequadas.
Beijinhos
BIBY

alex disse...

Eu sinceramente não sabia que estas festas absurdas estavam na moda.Na minha opinião um dos objectivos do ser humano é ser saúdavel tanto fisicamente como psicológicamente.Pessoas infectarem-se com uma doença que ainda não tem cura e que traz sempre outras doenças devido ao uso dos retrovirais.Não me faz sentido nenhum.Além do custo para o estado cada vez mais c/ as suas politícas economicistas que afectam cada vez mais o doente.Luto sempre pela iqualdade de oportunidades e contra a descriminação a qualquer nível.
Mas isto só tem um nome burrice!!

Arnaldo Reis Trindade disse...

Não consigo acreditar em tamanha ignorancia, espero que se isso aconteceu que não aconteça mais e aos governantes e farmaceuticos qu acham que podem tudo, acho que devem respeitar mais as pessoas, tanto os queprecisam dos remédios para sobreviver quanto os que precisam do remédio pra continuar com uma vida praticamente normaç e não aumentarem o temanho de seus problemas.

abraços

Tattoozinha disse...

tenho 31 anos , e 16 anos da minha vida , foi nesta roda viva, de toma de medicação e analises constantes. No inicio nada existia, e agora tudo existe. No inicio era o pavor, agora é por sorte, vou ter ou não sorte de contrair a doença ou não. Não sei, sei apenas, que não é preciso existir modas, e que cada vez mais tanto os jovens como as mulheres acima dos 40, estão a chegar as consultas..... e pk ?

Porque nada se faz? Ou porque que o deve fazer põe o dinheiro ao bolso, e gastar balúrdios em campanhas que não surtem qualquer efeito.

Quando todos conseguirmos dar a cara e dar as mãos sem receios e sem vergonhas, pode ser que as coisas mudem.

um beijo, e parabéns por este blogue.