Metade dos portugueses não faz o teste do VIH/SIDA por medo



Apesar de um em cada três portugueses conhecer uma pessoa seropositiva, metade da população tem receio de fazer testes para diagnóstico da doença por vergonha. Os dados fazem parte do estudo “A Opinião Pública Portuguesa e a Sida – Ultrapassar a Era do Medo”, que revela que 80 por cento dos inquiridos associa esta doença ao medo, o que os impede de irem ao médico para evitarem ser confrontados com possíveis maus resultados.

De acordo com o mesmo estudo, realizado no âmbito do Dia Mundial da Luta Contra a Sida, que se celebra a 1 de Dezembro, 43 por cento dos inquiridos considera que esta é a segunda doença mais grave em Portugal, depois do cancro (76 por cento), e 24 por cento refere que os portadores de VIH/Sida são dos grupos mais discriminados pela sociedade.

Ainda assim, há muito desconhecimento face aos comportamentos de risco e o medo e a injustiça são os principais sentimentos gerados pela doença. Cerca de 93 por cento das pessoas que participaram no estudo dizem que as pessoas infectadas com o vírus são discriminadas, e apenas 37 por cento sentem que este tratamento diferencial tem reduzido. O estudo revela, ainda, que uma grande parte das pessoas não tem uma ideia muito clara do número de infectados, nem da sua faixa etária. Embora a maioria dos inquiridos (77 por cento) associe o risco às relações sexuais não protegidas (não utilização de preservativo), a multiplicidade de parceiros sexuais é considerada por apenas 14 por cento.

Quanto à atitude das diferentes entidades no combate à Sida, são as áreas ligadas à saúde, à investigação e à solidariedade social que têm uma atitude mais empenhada, para os entrevistados. Do lado contrário está o Estado, os líderes de opinião, a igreja Católica e os Empregadores, vendo 58 por cento dos inquiridos estes últimos com desconfiança.


Campanhas publicitárias pouco recordadas

Para os inquiridos as campanhas de publicidade mais eficazes são as que apelam à prevenção, ao uso de preservativo e à necessidade de um diagnóstico precoce. São estas que a população melhor recorda. Porém, a grande maioria é indiferente a muitas delas – apenas 49 por cento recorda com alguma facilidade as campanhas publicitárias levadas a cabo nas últimas décadas.

O estudo - elaborado pelo Instituto de Ciências da Saúde (ICS) da Universidade Católica Portuguesa com o apoio da Tibotec – baseou-se num inquérito realizado em Novembro junto de 603 portugueses, de ambos os sexos, entre os 18 e os 65 anos, sobre temas de saúde pública. “Pretende-se que as conclusões possam dar um contributo fundamentado para se ultrapassar o medo, gerando novas atitudes face às pessoas seropositivas e à doença”, explicou Castro Caldas, médico neurologista e Director do ICS.

Em Portugal, o primeiro caso foi detectado em 1983, no Hospital Curry Cabral. Segundo estimativas para Portugal do Programa Conjunto das Nações Unidas para a Infecção VIH/Sida, existirão no país cerca de 32 mil pessoas infectadas, entre os indivíduos do grupo etário dos 15-49 anos. Assume-se para este cálculo um número de infectados não diagnosticados de 30 por cento, de acordo com a média da União Europeia.

De acordo com a classificação adoptada pela OMS, a epidemia portuguesa é do tipo concentrado. A prevalência na população geral portuguesa é inferior a um por cento, mas pelo menos em dois grupos vulneráveis (utilizadores de drogas injectáveis e reclusos) é superior a cinco por cento. No caso dos grupos de utentes que recorreram em 2004 às diferentes estruturas de tratamento da toxicodependência, as percentagens de positividade para o VIH variaram entre os 12 por cento e os 28 por cento. O relatório diz também que o peso relativo das vias de transmissão da infecção tem-se modificado em Portugal, mas os utilizadores de drogas injectáveis representaram, desde o início da epidemia e até 1999, a maior proporção de infectados.

27.11.2008 - Romana Borja-Santos - Jornal Público

11 comentários:

Brancamar disse...

Muito interessante este texto!
Cá em casa tanto eu como a minha filha já fizemos o teste, ela porque teve um médico que lhe disse que a acreditar nela e como dizia que não tinha namorado não lhe ia pedir o teste e aí foi ela que insistiu que até gostaria de o fazer e logo a seguir eu própria quando pedi umas análises de rotina a um cunhado que é clínico geral, pedi-lhe para acrescentar a do VIH.
Não percebo porque não fazê-la.É tão fácil como outra qualquer. O meu cunhado também me acrescenta muitas vezes a dos marcadores tumorais. É uma prevenção como são todas as outras.
Por vezes as pessoas não se assustam com o colesterol alto, os valores do fígado alterados e tantas coisas com que podem cair para o lado de um momento para o outro, porque não fazerem esta análise?
É bom que se desdramatize.
Bem hajas por o fazeres.
Obrigada pela tua sensibilidade.
Tudo de bom para ti e para o Raul e para todos os que passam por aqui.
Voltarei logo para pôr a leitura em dia, para ler o Raul no texto do Sidadania II, já fiquei feliz por ver que ele tem melhorado, que anda por aqui a trabalhar. Se vier ler-me quero dizer-lhe que a minha mãe que fez a mesma operação ao coração que ele há um ano, com 76 de idade, está como nova, os primeiros 6 meses foi melhorando paulatinamente, mas no Verão já estava pronta para tudo e agora está mais fresca que as filhas,eheheh, até já se ri do nosso stress e do nosso cansaço, porque ela tinha muito e desapareceu-lhe essa sensação, nota-se até o seu ar muito mais fresco.
Raul, vais ficar como novo!
Beijocas.
Branca

SILÊNCIO CULPADO disse...

Paulo
Todos os textos são oportunos mas este é-o por maioria de razão.
Há que falar, até esgotar, que a prevenção passa por conhecer a realidade.
As pessoas têm medo de serem confrontadas com o veredicto do HIV. E têm medo porque lhes foram incutidos preconceitos desumanos e absurdos em relação à doença.
Relativamente aos grupos de risco que mencionas há que tomar medidas concretas e direccionadas e acompanhá-las para que não redundem em fracasso.

Abraço

R. Rudoisxis disse...

O medo existe. Direi mais existe pânico, e tenho constatado isso em visitas ao CAD com pessoas que acompanho a fazer o teste, e vendo o nervoso das pessoas que estão aguardando o resultado.
Uma das nossas leitoras, cujo nome não revelo deixando-lhe a oportunidade de se revelar se o desejar, e com a qual fui bem duro uns dias atrás, demonstra esse panico sem qualquer razão pois já fez mais do que um teste negativo e apenas quer a tranquilidade total presupondo um periodo janela mais longo.
O Marido está infectado, e depois de saberem da infecção nunca mais houve relações desprotegidas.
São pessoas informadas, ele é médico e ela está ligada também ao serviço de saúde, pelo que aparentemente deveria haver uma certa tranquilidade. Se transpormos isto para o comum cidadão sem grande informação o que poderemos esperar?
É necessário ver o teste apenas como um comprovativo de algo que se existir não tem retorno possivel.
O teste é um passaporte para um melhor controlo da doença caso haja o azar da infecção se revelar.
Não o fazer pode levar a uma degradação do sistema imunitário desnecessária a qual pode ter graves consequencias a nivel de saúde futura.
Recomenda-se, não doi e faz bem à saúde.

sideny disse...

paulo
bom texto este.
continua sim as pessoas a terem medo de fazer o teste, elas não têm medo do teste mas sim do resultado.
quanto mais cedo se souber se é portador ou nâo melhor.


lidia
desculpa, mas não ha grupos de risco, mas sim comportamentos de risco, o não se prevenirem em relaçoês sexuais, usarem as mesma seringas e por ai fora.
beijocas

f@ disse...

Olá Paulo, pois o medo deveria ser tb uma razão para o teste.... Não percebo mto bem as pessoas... penso até que devia ser obrigatório fazer o teste...
tudo de bom e beijinhos das nuvens

Serginho Tavares disse...

ninguém faz a não ser que seja obrigado
uma pena
adoro suas visitas
volte sempre

beijos

Fatyly disse...

Também li na íntegra este artigo e fizeste muito bem em converte-lo para aqui, porque há medo, pânico e muita falta de informação versus prevenção, quer nos infectados, quer nos não infectados.

Gosto de vir aqui porque nunca é demais ler, reler, ler, reler e APRENDER para sabermos lidar com situações que encontramos no nosso dia-a-dia!

Também referem uma subida assustadora dos mais velhos 60/70/80 que ao saberem dizem que pensavam que era "algo" apenas dos toxicodependentes e homossexuais. Algo? apanhado em relações "desprotegidas" extra-conjugais e que contaminaram os ou as companheiras.

Há muita ignorância e acredito que não é nada fácil receber uma notícia dessas, tal como de outra patologia qualquer.

Também li os comentários e Raul por vezes há que ser duro, tal como eu quando vou dar sangue e arrasto alguém para começar a dar...fica em pânico a aguardar os resultados e se? Se? que eu saiba o virús ainda não ganhou asas e só não lhes dou purrada porque não posso nem devo. Depois é o alívio e com os muitos(as) que já levei, sei que tomaram a consciência de que não se deve "brincar com a sua vida e sobretudo com a de quem vive a seu lado". Há dois que são leitores dos vossos blogues, mas não deixam comentários e através de vocês eles próprios já aprenderam a olhar com outros olhos quem foi apanhado "por esse rafeiro".

Mais uma vez obrigado e recebe um abraço com votos de um bom fim de semana

Odele Souza disse...

Muito bom o texto. E como no comentário de Raul: Se pessoas bem informadas têm medo de fazer o teste, imaginemos as menos informadas. Essa barreira do medo há que ser vencida. Quanto mais cedo a doença for diagnosticada, melhor.

Abraços.

M. disse...

Paulo

Creio que ainda esta semana contei ao Raul uma situação caricata que se deu no meu trabalho: um homem entrou dirigindo-se à recepção pediu apenas para falar com um responsável, tarefa que me calhou pela ausência da directora. Uma vez na frente dele e esperando que começasse a falar vejo-o com espanto a olhar para os lados com os olhos como que a certificar-se que ninguém ouvia, uma autêntica cena do "Alô,alô" ou de espionagem, pelo que o convidei a entrar no gabinete onde mesmo assim estava a ver que nunca mais desembuchava! Este homem queria fazer o teste ao HIV porque teve um comportamento de risco há cerca de um mês e só pensava que tinha contraído sida, e perguntou me toda uma série de coisas desde a fiabilidade do teste até à hipótese de ainda ser cedo para o virus se manifestar positivo no teste mas de um modo que revelava uma autêntica paranóia. Aconselhei-o então a ir ao médico de familia para solicitar uma credencial e ele ficou sobressaltado, que estava fora de questão que o médico soubesse e fez o teste em particular o que fica um balúrdio desnecessário. E como seria de esperar, quis o resultado do teste para o próprio dia, estando à hora combinada em ponto na recepção para o ir buscar. O mais incrivel é nem se precoupar com hepatites, sifílis ou outras DST que têm consequências tão ou mais graves que a Sida se nãoforem detectadas e tratadas. E este homem tem formação académica e à volta de 35 anos. Isto é preocupante!

Paulo disse...

A todos o nosso muito obrigado pelos testemunhos aqui deixados sob a forma de um comentário, com a capacidade de mudar o mundo!

Hermínia Nadais disse...

Mudar o mundo!... Quem dera!... Se o querer de uma pessoa fosse capaz, acerdite que estavamos com um mundo mudado!
Mas... cada um de nós só pode mudar u mundo mudando-se a si mesmo e desejando que o mundo mude... afinal, não é o sonho que comanda a vida?!...
Beijinho. BOm 2009