Ser Solidário: Um Laço ou um Abraço?


Questiono-me frequentemente sobre o significado de ser solidário. Em teoria, o altruísmo levado à letra no sinónimo do amor ao próximo, sugere-nos a possibilidade de sermos solidários. Porque somos humanos, somos sensíveis ao sofrimento e quando confrontados com realidades severas que a vida nos apresenta como factos reais a cada dia que passa, sentimos um desejo inato de exercer a solidariedade.

Na prática, a solidariedade que nos dispomos a prestar, muitas das vezes fica guardada no baú das teorias que vamos armazenando ao longo da vida. Confiamos na existência de associações e instituições de solidariedade e lavamos as nossas mãos, dando o assunto como resolvido.

Contudo, a existência de organismos que praticam a solidariedade lutam na maioria das vezes com dificuldades concretas, pela falta de apoios sociais e económicos, pela procura superar largamente a oferta e pelo facto de quem deles precisa não poder encontrar o calor humano de uma verdadeira familia de acolhimento.

Existem no mundo muitas pessoas desocupadas no tempo, que optam pela companhia da solidão, que rapidamente se instala definitivamente nas suas vidas. Muitas dessas pessoas assistem diariamente através da comunicação social, aos dramas e flagelos que acometem a sociedade em que vivemos, colocando em risco a manutenção de um mundo saudável. No entanto, muitas dessas pessoas nunca pensaram, nem que por breves momentos, prestar voluntariado a quem dele tanto precisa. E existem tantas pessoas que necessitam de ajuda, ou porque estão doentes, entregues ao abandono nos hospitais em constante agonia, ou porque vivem no limiar da pobreza, onde tudo falta, para manter a vida, ou porque estão sós no mundo e com ele não podem contar.

Durante alguns anos, desde que apareceu a SIDA, era frequente vermos pessoas com o laço que a simboliza, colocado na sua indumentária. Para muitas dessas pessoas, tal facto bastava para que se sentissem solidárias. No entanto, muitos seres humanos morriam, na ausência de medicação eficaz, sem que muitas dessas pessoas se disponibilizassem a contribuir com a prestação de qualquer iniciativa, que promovesse a qualidade de vida possível, naqueles dias que seriam na realidade, os últimos de quem estava infectado.

Outras pessoas, visitavam os hospitais deixando um abraço fraterno a quem se encontrava em sofrimento, nunca pensando ser possível a prestação de alguma forma de ajuda, para além dos cuidados médicos adequados. E ser solidário, permanece muitas das vezes aquém da vivência da solidariedade, na sua plenitude.

O laço simboliza uma causa, pelo que sugere que algo se faça. O abraço afaga a dor e o sofrimento, mas não é suficiente para ajudar a manter a dignidade no momento em que é necessária, porque somos seres humanos, com necessidades fisicas concretas e prioritárias, que neste caso, superam o carinho de que também necessitamos.

Ser solidário é ser humano e ser humano é estar atento à adversidade, para que de imediato a possamos apaziguar. Um pouco de cada um, reunirá sempre o suficiente, para promover a ajuda a quem dela precisa. Amanhã a probabilidade de sermos nós é real e imensamente concreta.

Ser solidário é essencialmente agir, para que os laços e abraços sejam simbolos daquilo que somos, da conduta que fazemos e traduzam as metas que conquistamos e não as que ficam por conquistar. Os simbolos acompanham-nos na caminhada e estão lá com o desígnio de nos fazer avançar. Não podem imortalizar a partida, para que os alcancemos à chegada, na missão que nunca se cumpre, por nunca estar terminada.

17 comentários:

f@ disse...

UM LAÇO É UM ABRAÇO
Porque somos humanos nem sempre somos sensíveis…
Aberto o “baú das teorias” e das intenções deixaria mtos corações bem mais felizes…
E passando mesmo ao lado material… bastava que todos comessem 50g a menos bebessem menos um café ou um copo, ou fumassem menos 1 cigarro… atitudes assim deixavam ambas as partes mto mais saudáveis quer a nível físico quer emocional…
Beijinhos das nuvens

Paulo disse...

F@
Tal qual como dizes, um pouco de cada um, será o suficiente para quem muito precisa.
Este post é um apelo a isso mesmo.
Obrigado pela tua visão.
Um beijinho nas nuvens...

f@ disse...

PAULO DESCULPA O DESCARAMENTO... mas acho que nem é uma ideia nova nem nada... que tal o sidadania ter mesmo uma galeria de artes... nem só pintura... escultura etc...uma galeria a sério com espaço aberto e mtas obras... mto até divulgada nos média a nivel nacional... isso ajudaria em todos os aspectos.... Pensem... bj das nuvens

Fatyly disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Fatyly disse...

Apaguei o anterior por ter erros de palmatória e não me apetece voltar ao passado (gargalhadas)

Paulo
Ironicamente nunca usei qualquer simbolo de solidariedade, porque os que uso não são visiveis já que penduro no meu coração.

Falas de algo com muita clareza ser solidário é muito mais do que isso.
Mas também te digo que sou solidária até onde chegam os meus braços, já que não sendo bafejada pela riqueza dou e distribuo o que tenho e o que me dão para dar!
Não falarei do que eu meia dúzia de malucos fizemos em Angola, mas falarei dos 30 anos em Portugal.
Sou dadora de sangue há 30 anos e de certa forma deu-me um "livre trânsito" pelos hospitais. Ou seja, quando dava aproveitava para visitar alguns doentes e que sempre que tinha tempo livre (como as duas horas de almoço na época)lá ia eu levar a revista ao X, uns cigarritos à Y, etc, etc.
Nunca me inseri num grupo de voluntários porque havia e há alguns, cujos elementos (com conhecimento de causa) eram de tal forma senhores do mundo que recebiam e recebem pessimamente mal a quem quer fazer parte do grupo de voluntariado. Essa má recepção feita mais por algumas mulheres do que por homens fez com que muitos e eu inclusivé desistissem de fazer parte de...

Mas não parei e participo no seguinte:
- aqui na minha rua há uma guerra pegada com os gatos de rua. Há quem os alimente todos os dias inclusivé com a compra de refeições num pronto a comer aqui perto (o que sou contra), para não falar dos sacos de comida que atiram das janelas e que por isso já lixaram o vidro do meu carro, a comida ficou a escorrer pelo vidro e os gatos riscaram-no todo com as unhas.
No entanto há um rapaz que dorme nas escadas traseiras de um restaurante que dá para a outra rua. Vejo-o a vir todos os dias à noite e pela madrugada levanta-se, enrola as suas coisinhas e esconde-as debaixo de uma caixa de cartão.
Sempre que o vejo a vir, vou levar-lhe uma dose do meu jantar, com prato e talher descartável para não ter que devolver, o qe é sempre confrangedor para quem faz da rua o seu abrigo!
Há tempos viram-me e um casal que alimenta a gataria(não sou contra os bichos) parou e disse: ah a vizinha fala, fala, mas afinal faz o mesmo.
Desculpem, importam-se de me acompanhar? Com cara de espanto foram comigo e lá no cantinho: Oh X toma lá, tens aqui algo aconchegante, uma água e duas peças de fruta.
Esse casal nem queria acreditar no que via e morando mesmo ao lado nunca deram pelo moço. Falei com eles e disse: um gato de rua tem defesas e alimenta-se, um ser humano só se alimenta se catar lixo, se...entenderam agora?
Espalhou-se e o certo é que a guerra dos gatos acabou e tornam-se mais solidários para outros que vagueiam por aqui. Longe de mim querer galardões ou elogios mas é com exemplos que educamos uma sociedade.
Este jovem que é toxicodependente já esteve internado, já esteve em várias instituições e foge sempre. Estava com os pés num estado que nem imaginas e num andar que dava dó. Dei-lhe comida e falei com ele que deveria ir já ao hospital. Concordou e os bombeiros lá vieram e levaram-no. Esteve internado e foi transferido para uma instituição a muitos quilómetros daqui. Está bem e oxalá que fique por lá para seu próprio bem.
Depois quando vizinhos e amigos têm roupa, calçado ou brinquedos entregam-me, peço sempre "eh pá dá aí também um pacote de leite, arroz ou feijão":) faço uma triagem e vou entregar à AMI, a uma Associação aqui perto que alberga mães adolescentes e os seus filhos e ao Telhal.
Também dá trabalho ir entregar radriografias e medicamentos na farmácia e já perdi a conta das que retirei do lixo e entreguei.
Quando temos um familiar no hospital é hábito uma romaria. Não ligam nenhuma durante o ano e só querem saber quando estão hospitalizados? E numa tarde que por lá ficam, custa ir dar um carinho, uma palavra ou um sorriso aos companheiros do lado ou do mesmo piso?
Contribuo sempre para o Banco Alimentar. Ofereci-me como voluntária para o armazém, fui chamada mas não pude ir porque na altura tinha uma das netas com uma bronquiolite.
Já visitei o IPO e o Curry Cabral onde fui ver um amigo que já faleceu e sempre que lá ia fazia a festa, lançava os foguetes e apanhava as canas.
Ficaria aqui o resto do dia:)
Julgo que isto é a verdadeira solidariedade, porque se todos fizermos um pouco "até onde os nossos braços chegam", todos juntos Portugal seria mais florido.

Mas quem sou eu para vos dar lições? ninguém, apenas uma simples mulher que aprendeu que "as palavras são necessárias, mas muito mais necessários são os gestos sem gabarolices" e para terminar:
subscrevo as palavras de f@.

UM grande abraço

Paulo disse...

F@
Gostei muito da tua ideia. Quando procurei obras criados por seropositivos para ilustrar um dos posts que escrevi, encontei imensas e algumas maravilhosas. Na altura tive uma ideia similar à que tiveste e que nos sugeres. Digo-te uma coisa: O Sidadania tem muito por onde caminhar e encontrará decerto rumos importantes, visando o cumprimento de todos os objectivos a que se propôe.
Um beijinho nas nuvens e obrigado pela tua sugestão.

Paulo disse...

Fatyly
Todos os exemplos que nos transmites são os verdadeiros exemplos da prática da solidariedade, propriamente dita.
Dentro das tuas possibilidades, praticas solidariedade em várias vertentes e estarei certo ao afirmar que te sentirás muito contente por isso.
Fiquei muito sensibilizado por tudo o que nos transmites no teu comentário, que são sugestões vivas a todos aqueles que após te lerem, possam também encontrar a disponibilidade possível para agir como tu.
Fatyly, és de facto uma pessoa singular e podes dizer com toda a certeza que és efectivamente uma pessoa solidária.
Bem haja.
Um beijinho especial.

Coragem disse...

Apesar de cansadita, não poderia deixar de comentar, escrevo devagar, mas de certo não te zangas ;)

Pois é Paulo acho que me colocaste a pensar e muito.

Acho que nunca fui solidária na minha vida.

Nunca fiz voluntariado, já pensei no assunto, mas a verdade é que nunca o fiz...

Ter sido Mãe de acolhimento de 2 crianças orfãs durante 6 anos, não conta...

Evitar que Pai e Mãe com alzheimer, fossem para um lar a pedido de uma irmã, trazê-los para viver comigo,e o meu Pai com quase 80 anos, (desculpa mas vou dizê-lo)todos os dias dizer que eu sou a maior merda que existe na vida, também não conta...

Passar o pouco tempo que me resta a falar com as vizinhas que se encontram sozinhas na vida, também não conta...

Levar sacas de ração, todas as semanas ao cantinho dos animais, não, não conta.

Levar horas a conversar com miudas na net, com intensões suicidas, pois não.


( nem vale a pena falar em tantas, mas tantas outras coisas)

Paulo, com tanto tempo livre que tenho, pois não trabalho, nunca fiz voluntariado, tenho vergonha...

Pergunto Paulo, o que é ser solidário?

Sinto-me mal, porque não abraço causas diárias, causas que todos conhecem, porque não regresso a casa a pensar no que deixei lá fora, porque as minhas causas geralmente, trago-as todas para dentro de minha casa.

Beijo sincero

peciscas disse...

Muito lúcido e correcto este texto do Paulo.
De facto, vivemos num tempo em que descarregamos os pesos da consciência, através de ícones, efemérides ou gestos simbólicos, mas que, no fundo, pouco têm de solidário.
E isso passa-se, desde logo, no próprio seio familiar. Visível, por exemplo, na forma como os idosos são depejados em lares ou mesmo nas urgências dos hospitais.
Como dar a volta a tudo isto ?
Há que, para começar, acreditar que é possível dar mesmo a volta.
Denunciando, esclarecendo, inquietando!

Fatyly disse...

Paulo peço-te desculpa mas vou responder à Coragem:

- Ai mulher dizendo que não és solidária abraçando o enorme fardo que tens e pelo que fazes?
A meu ver não é por fazer o voluntariado (que não faço pelos motivos que disse) que somos solidários e o que fazes não é solidariedade em causas diárias?

Barra pesada mas escolheste um belo nick.

Parabéns e quando puder irei visitar o teu espaço.

UM abraço sincero e FORÇA!

Paulo disse...

Coragem

Ter sido Mãe de acolhimento de 2 crianças orfãs durante 6 anos, conta e muito...

Evitar que Pai e Mãe com alzheimer, fossem para um lar a pedido de uma irmã, levá-los para viver contigo,e o teu Pai com quase 80 anos, todos os dias dizer que és a maior merda que existe na vida, conta e muito...

Passar o pouco tempo que te resta a falar com as vizinhas que se encontram sozinhas na vida, conta e muito...

Levar sacas de ração, todas as semanas ao cantinho dos animais,conta e muito...

Levar horas a conversar com miudas na net, com intensões suicidas, conta e muito...

De facto, ser solidário, não conta para quem pratica a solidariedade, mas conta e muito para quem a recebe no tempo... independentemente do espaço, onde a mesma se exerce.

Dentro ou fora de casa, e respondendo à tua pergunta, digo-te que és de facto uma mulher solidária. Parabéns.

Beijo Sincero

Paulo disse...

Peciscas

Denunciando, esclarecendo, inquietando, é de facto a única forma de chamar as pessoas à razão, de fazê-las ver que descuram a cada dia que passa aquilo que realmente as distingue: A capacidade que todos temos, porque somos humanos, de ser solidários.
Um abraço

Paulo disse...

Fatyly

A Coragem é sem sombra de dúvidas uma mulher solidária, todos sabemos disso.

Não importa o espaço, importa sim o tempo e Coragem dispôe sempre do tempo que tem para praticar solidariedade com o seu semelhante.

Um beijinho especial

sideny disse...

paulo

tive um amigo que era portador do hiv ja faleceu ha 2 anos.
fiz tudo para o ajudar pois ja estava bastante mal de cama mesmo.
tanto me mexi que la consegui ajuda para ele [de comida so]
pois o resto era eu que o ajudava
sempre que precisava era a mim que recorria,pois a tal ajuda que lhe arranjei so durou pouco tempo.eles responderam-me esta melhor ja pode se mexer,irem buscar os medicamentos ao hospital nao iam,tinha de ir ele com muito custo.tanto custo lhe custou que la acabou por ficar e morreu.
arranjei-lhe uma reforma para sobriviver pois ja nao podia trabalhar.ate do quarto o mandaram embora, sabes tinha sida dizia a senhoria e ele sempre o pagou.
outro..
um idoso pediu-me no outro dia se lhe podia pagar um cafe,como so tinha na altura o dinheiro para o meu disse veja se alguem (porque o cafe estava cheio de gente] lhe pode pagar ,nem um lhe pagou eu fiquei em brasa com aquilo que vi
chamei e deu-lhe o meu cafe.

como ja comprei um bolo a um que dizia que tinha fome ,sabes o que fez deitou fora.
abraco

Paulo disse...

Sideny
Fiquei muito emocionado com o seu comentário, que demonstra que a Sideny é de facto uma pessoa solidária. Apoiar como apoiou o seu amigo com hiv é uma atitude fabulosa, pois neste caso apoiar um amigo, que tem a mesma doença que nós é de facto reconfortante.
Semear para colher e desejo que a Sideny venha a colher o fruto da sua bondade e solidariedade. Estou muito sensibilizado consigo.
Um abraço e muito obrigado por ser quem é.

P.s. Havemos de tomar um café e comer um bolo juntos, com a certeza que se alguém quiser compartilhar do nosso lanche, será recebido de braços abertos, pois a infecção pelo HIV, teve em nós o seu lado positivo, o de nos transformar em pessoas melhores, para com todos aqueles que possam precisar de nós, essencialmente.

Convido-a a visitar o Sidadania II e ler o texto que redigi para Fatyly.

Bom fim de semana.

sideny disse...

paulo
ja li mas por enquanto nao vou comentar.
gosto de ajudar tiro a camisa como se costuma dizer.
nao gosto e de comentar o bem que faco.

terei todo o gosto em tomar o tal cafe, ja conheco a lidia e gostava de o conhecer tambem-

o raul ja o conheco ha muitos anos pessoalmente.

bom fim de semana

sideny disse...

o