Correio dos Leitores

Às vezes, numa de nostalgia lembro-me dos tempos, em que no site do aidsportugal, na rubrica positivos on- line e no fórum, respondia a pessoas que colocavam as suas dúvidas.
Usava o nick “Watcher” e mais tarde assinava como Raul van der Watcher.
Um comentário de um caso de vida, feito noutro post, "Relações Serodiscordantes" de 23ABR08, fez-me reviver esse passado e escrever este texto. Convido os nossos leitores a darem uma palavra de carinho à pessoa que vive este caso real no “virtual”, sem se dar a conhecer.
Vamos começar:

Caca escreveu:
ola...descobri ha pouco mais de uma semana que o meu marido esta infectado com hiv...como podem imaginar foi o maior choque que alguma vez imaginei ter na minha vida, eu que sempre tive um comportamento socialmente visto como "decente"... ainda me sinto atordoada. a minha primeira reacção foi de panico, pela possibilidade de estar também infectada, o que pelo menos até agora, não se revelou... depois de estar 4 dias sem comer ou beber alguma coisa, sem sair a rua e a chorar compulsivamente, fui a igreja onde nao entrava ha mais de 15 anos... so pedia a deus que me fizesse acordar deste pesadelo...neste momento, não estou livre de estar seropositiva também ,mas tento pensar que isso não vai acontecer... é uma forma de me auto-controlar...quanto ao nosso relacionamento, devo dizer que estou a sofrer muito, muito mesmo com isto tudo, mas nunca passou pela minha cabeça abandonar o meu marido...ja pensei em todos os riscos, sei que viver com ele não me vai prejudicar, se fosse preciso viver com ele para sempre e sem sexo, eu viveria, porque apesar do sexo ser bom e ser importante, não é isso que me faz feliz... o que me torna alguem tão feliz é ver o seu sorriso ao acordar, sentir o seu cheiro, tocar a sua pele e ouvir o seu coração bater... saber que essa pessoa esta sempre comigo nos bons e maus momentos. é por isso que terminar esta relação nunca foi uma hipotese.ele sim, por amor, sugeriu um afastamento que eu recusei...é verdade que tenho medo de um contagio, também é verdade que morro de medo de o ver sofrer, de o ver degradar, de o ver doente e de imaginar sequer que um dia ele pode partir e me deixar só neste mundo... é muito assustador... mas se há alguem forte como uma muralha, esse alguem é ele que esta a fazer das tripas coração para enfrentar isto e decidido a vencer isto... é essa sua postura que me dá força... por outro lado tenho pesquisado na net e percebi que com o tratamento adequado, boa alimentação e com apoio familiar e social, principalmente, se pode levar uma vida normal.ainda é cedo para conclusoes pois tudo isto é muito recente... ainda me sinto como se tivesse atravessado um tsunami... mas a todos os que lerem esta mensagem eu digo... usem sempre preservativo, para que não tenham de passar por isto também... isto vem do fundo do meu coração.

Raul van der Watcher responde:
Sei por experiência própria o impacto da notícia. O mundo não acabou e o mais importante é enterrar o passado e cuidar do futuro. Se não estiveres infectada porreiro, se estiveres já não há nada a fazer porreiro na mesma. Este tem de ser o teu espírito base.
A tua relação com o teu marido pelo que descreves é feliz, e não é um vírus entre vós ou em vós que vai fazer a diferença, e fazer com que sejam infelizes.
“4 Dias sem comer ou beber a chorar compulsivamente” é o luto e o interiorizar a dor. Não sei se este luto foi passado sozinha e se o teu marido viveu o noticia da infecção dele separado.
“Fui a uma igreja onde não entrava hà 15 anos” As igrejas são espaços de silêncio e respeito, onde nos podemos encontrar connosco, ou exteriorizar a nossa dor com algo em que acreditamos. Foi óptima essa atitude, mas o milagre está dentro de ti. Só tu podes decidir a tua vida e a tua felicidade estejas infectada ou não.
Tens medo de ser infectada, mas estás disposta a manter a relação mesmo com abstinência sexual. Se não houver sexo como podes ser infectada? Se houver sexo protegido não deves ter esse receio. Se houver um acidente, como rebentamento de preservativo, tens a terapia P.E.P. disponível creio que em todas as urgências hospitalares, portanto não há que haver receios. Mas disto falaremos mais tarde se quiseres continuar a usar o “Sidadania” como plataforma de aprendizagem a viver com o HIV.
Quanto aos teus receios de o ver o teu marido degradar, doente, numa cama e incapaz de cuidar dele e poder morrer, são receios infundados actualmente, mas essa imagem vem do passado e está arreigada nas mentes da maioria daqueles a quem a Sida não bateu à porta.
Concluindo a resposta à tua participação, 4 dias de jejum são óptimos para desintoxicar o organismo e não fazem mal a ninguém. Água convém beber para não desidratar. O chorar lava a alma e foi bom chorares. O ires à igreja encontrar-te contigo mesma, e com a entidade superior em que acreditas foi o passo para operares o milagre e começares a viver de novo.
A realização desse milagre e da tua felicidade está nas tuas mãos. Não te isoles nós estamos aqui para te ajudar e encorajar portanto usa este espaço para escreveres o que te vai na alma a cada momento. Um Abraço

9 comentários:

Paulo disse...

Raul

O que une efectivamente as pessoas são os sentimentos reais e profundos que criam umas pelas outras. Este testemunho é prova inequívoca disso mesmo. No coração desta mulher não reside o ódio, a raiva ou o sentimento de vingança. Existe sim o olhar em frente, o desejo de adaptação a uma nova e definitiva realidade, sem que isso coloque em causa o que sente por quem ama verdadeiramente. Este é um exemplo de como as pessoas dever ser constituidas: de dentro para fora, onde o ultrapassar barreiras, vencer obstáculos, conquistar batalhas e enfrentar a guerra só é possível, pondo em prática aquilo de que realmente são feitas, de sentimentos que definem a essência humana.

Um abraço

Fatyly disse...

Li e reli, bem como o comentário do Paulo.

DE "facto as pessoas devem ser constituídas de dentro para fora", mas ao ler o "desabafo bem atordoado desta mulher" veio-me à ideia algo bastante corrosivo (pelo menos para mim) a infidelidade. É certo que podia ter sido infectado por outro meio (seringas, etc, etc.) que não interessa saber, mas seguindo o meu raciocinio ao sabermos que somos enganados dói e ainda mais com esse flagelo é de dar em maluca(o).
Sinceramente não sei o que faria, ou melhor se teria capacidade de continuar uma relação dessas, apenas e tão só pela infidelidade.
Até hoje não consegui entender "a mentira da escapadinha". Já seiiii a carne é fraca, fraca? não aceito, mais vale dizer a verdade porque a mentira tem perna curta. Seja homem ou mulher...a verdade, sempre a verdade...e depois sim fazer uma análise dos porquês e continuar ou não numa de perdoar, esquecer e seguir em frente.

O isolamento dela, o procurar calma é um sufoco o tal luto do que o Raul fala.

Não sei se me fiz compreender!

Um abração sincero

RAUL disse...

Fatyly
Gostei do teu comentário e foste bem compreendida.A velha história da fidelidade versus o meu conceito de fidelidade e a eterna questão perdoar ou não perdoar. A dor da traição segundo os conceitos de cada um. Eu e o Paulo,não podemos ser exemplo para ninguém no que diz respeito à fidelidade no conceito tradicional.
Dar uma queca extra conjugal é infidelidade e mais nada.Eu tenho outro conceito de fidelidade, mas tenho que respeitar o conceito dos outros e esperar que respeitem o meu mesmo não estando de acordo.
Importante aqui é ver (e neste caso não sabemos se houve infedilidade)como os laços afectivos se desenvolvem quando há algo grave que afecta o nosso conjuge.A prova dada pela leitora do quanto ama o seu companheiro passa por cima de todos os entraves, as culpas, o apontar o dedo e o acusar têm de ser enterrados e esquecidos ou a continuidade dessa relação está em risco. Claro que se houver o sentimento de traição ele terá de ser esquecido através do perdão.
A mentira da escapadinha que falas, e a justificação para a mesma, não vou abordar iriamos estar os dois em conflito.
Não sabias o que farias, se o caso se passasse contigo. Espero que nunca o saibas, e que nunca aconteça. Mas se acontecesse eu compreenderia qualquer atitude que tomasses fosse ela quebrar a relação logo ali, ou perdoar e continuá-la com uma intensidade nunca vivida antes. O amor revela-se na sua forma mais pura nas grandes crises. Um beijo amiga.

Fatyly disse...
Este comentário foi removido por um administrador do blogue.
RAUL disse...

O Comentário anterior era da Fatyly, e continha informação pessoal que ela não queria divulgar.
Lembro que os comentários, são de imediato automáticamente publicados pelos autores.Assim até eu descobrir o pedido de confidencialidade o teu comentário esteve on-line.
Reproduzo a parte do teu comentário que querias tornar publica.
Fatyly disse:
Raul
Obrigado pelas tuas palavras. Sim, de facto o conceito de infidelidade é diversificado e eu falei nisso apenas e tão só pela minha experiência pessoal porque sendo eu quem sou e se tivesse surgido esse flagelo, acredito que bateria com a cabeça nas paredes, nunca o abandonaria mas o grilhão da traição ficaria para sempre, porque não se justifica o "aprisionamento" numa relação de "monólogo" onde alguém ama demais e outro quer apenas: cama, mesa e roupa lavada.
Não se trata de uma simples queca.., mas sim da falta de diálogo.

Beijinhos

Fatyly disse...

Raul
pois é, a naba fui eu heheheheh. Também não tem importância alguma, apenas e tão só pelo "respeito ao falecido" que não está no meio de nós para dizer da sua justiça e por fazer parte do passado.

VIVA A VIDAAAAAAAAAA e hoje o dia está lindo!

Um abraço Raul e obrigado pelo teu cuidado!

Arnaldo Reis Trindade disse...

Nenhuma definição melhor pra estes sentimentos e pra o que se sente das pessoas e sobre as mesmas quando precisamos delas ou quando precisam de nós ou quando nos vemos em situações como estas do que a do Paulo.

sem mais palavras por enquanto,talvez não tenham melhores palavras do que as do Paulo e melhor texto de apoio que o do Raul, mas se possível estarei sempre aqui pra conversar e ajudar.


Paulo,Lídia e Raul

deem uma olhada neste link que segue abaixo e também no meu blog.
http://www.downloadseafins.blogspot.com/search.php?q=pkx&r=0&submit=Procurar
Abraços

SILÊNCIO CULPADO disse...

Raul
Já aqui vim umas quantas vezes mas não me decidi a comentar. Nem vou fazê-lo como é meu hábito e vocês vão desculpar-me. Não posso falar de ânimo leve sobre um assunto que mexe tão fundo com as emoções. Não posso falar de amor quando o amor anda tão esquecido na pesada cruz que as mulheres carregam das suas desvantagens e das suas dores ocultas.
Não falo por mim. Mas não posso ignorar esta realidade aflorada pela Fatyly.
Não, Raul, não posso dizer mais nada. Procuro que o espaço tenha um astral alto e poderia correr o risco de magoar.

Beijos

amigona avó e a neta princesa disse...

Os caminhos do AMOR são muitos e diversificados...não podemos pensar que só nós somos detentores da razão...beijos...