Eu e o HIV- 1 Ano de casamento

Completo este mês um ano em que realizei o meu casamento com o HIV. O namoro decorreu durante alguns anos, antes da realização deste acontecimento. Foi um namoro estranho, do conhecimento apenas de um dos intervenientes, e desconfiança do outro. No entanto, foi uma ligação forte, que veio para ficar. Provavelmente, este casamento, ao contrário de muitos outros, será para toda a vida, e terá decerto momentos bons e momentos maus, mas prevalecerá sempre, na alegria e na tristeza, na saúde e na doença, durante toda a minha vida. As núpcias foram de facto sofridas e dolorosas, não conhecia a minha cara metade, nem estava preparado para tudo o que tinha, tem ou poderá vir a ter, reservado para mim. Os padrinhos deste casamento, estão permanentemente presentes, vestidos de branco, dispostos a apadrinhar eficazmente, este relacionamento. Residem numa instituição de grandes dimensões, onde pernoitam muitos enfermos, deste e de outros casamentos, realizados ao longo da vida. Presenteiam os seus afilhados, com bonbons milagrosos, que, se ingeridos correctamente, prolongam por muitos anos a vivência desta relação, permitindo à mesma a possibilidade de disfrutar da vida, com sentido e qualidade.Assumir esta nova realidade, é um desafio constante e uma tarefa árdua. De facto, a vida já é tão dificil pelos mais variados motivos, do conhecimento de todos nós, pelo que, partilhá-la diariamente numa relação a dois, obriga a um equilibrio e a uma sensatez constante e até espontânea.O meu primeiro ano de casamento traduz-se num turbilhão de momentos diferentes, muitos em que me senti perdido, muitos outros, em consequência, em que me voltei a reencontrar. A minha rotina de vida sofreu algumas alterações. Todos os meses vou a casa do meu padrinho, buscar uma caixa de bonbons que ele tem reservada para mim, todos os dias, esses bonbons fazem parte da meu jantar, sendo a minha sobremesa, pelo que, três bonbons por dia são o suficiente, por enquanto, pois no que se refere às guloseimas, o organismo habitua-se a acaba sempre por pedir mais e de outras variedades. Em forma de agradecimento, visito o meu padrinho, pelo menos duas vezes por ano. Gosto sempre de o rever. Ele é afável comigo, carinhoso até, e está sempre interessado em saber, se me sinto bem com os bonbons que me oferece, com o devido cuidado de verificar, se os mesmos estão a tratar bem do meu corpo e consequentemente do meu espirito. O meu padrinho tem muitos conhecimentos, e tem um profundo conhecimento cientifico, que aplica empirica e sabiamente. Vivo a minha vida normalmente, tenho saúde, forças e energia. Trabalho todos os dias, e partilho os meus momentos de lazer com a familia e alguns amigos. Não assumo publicamente este casamento, pois é algo muito intimo, sendo apenas do conhecimento dos mais chegados, por forma a que possa ser devidamente preservado, por ser irreversível. Num casamento para toda a vida, quanto menos interferências e opiniões alheias, maior a probabilidade do seu sucesso.Esta casamento faz parte de um causa. Uma causa, como muitas outras, que existem no mundo em que vivemos. Uma causa que define, protege e ampara os que sofrem por algo tão elementar à vida, como a ameaça à saúde, ou à falta dela, como a ameaça à própria vida, ou à impossibilidade de a viver, em pleno e em felicidade.Neste blog, temos presente a causa da Sida, da qual pretendo ser parte integrante, como seropositivo novato. Temos presente a causa do cancro, pelo testemunho da doce Manuela e temos presente a causa da pequena Flávia, que, inocentemente, sofre de uma patologia que a impossibilita de disfrutar aquilo que a vida tem para oferecer. Na realidade, o Sol quando nasce não é para todos. Para mim, o Sol brilha, mas não me aquece e para muitos outros, o Sol nem chega sequer a brilhar, apesar da sua insistência.Após um ano de casamento, permaneço de braços abertos e mãos estendidas a todos os que necessitem de um abraço ou de muitos até. Permaneço também agradecido e solidário a todos os que também sofrem e que me apoiam. Permaneço, lado a lado, com o Ru2x, com a Manuela, com a pequena Flavia e com a malta do palacete, para que, todos juntos, possamos lutar pelo soltar de amarras, que nos limitam, condicionam e determinam, esta efémera, mas felizmente obrigatória, passagem pela vida.
Caloiro
Nota de Ru2x: Aqui na Universidade de aprender a viver com a SIDA, depois de cumprido o primeiro ano, os alunos deixam de ser caloiros. Tens de arranjar um titulo para assinar os teus textos, dos quais eu gosto muito. Eu sugiro SIDOSO BACHAREL, pois estás aceitando muito bem a nova condição de vida como infectado. Sei que não gostas da palavra SIDOSO, mas não fomos nós que a escolhemos.Foi mundo e a sociedade que nos baptizou assim, descriminando e estigmatizando todos os infectados. É preciso provarmos que a SIDA e os que padecem dela não são escória, mas sim seres humanos, que sentem, sofrem e partilham com outros as suas dores e que de maneira nenhuma merecem ser postos à margem da sociedade.

13 comentários:

Isabel-F. disse...

Olá Ru2x,

Olá Caloiro,

Gostei muito de ler este testemunho ... que está escrito com classe e humor q.b.;

todos os dias temos a oportunidade de aprender algo com o nosso semelhante ...´

é o que me tem acontecido aqui ... desde que encontrei este blog.

beijinhos para os dois

Anónimo disse...

Gostei do texto

Se não tivesse assinado como caloiro poderia achar que seria um texto de Ru2x (com outro nome) nos seus tempos fortes da escrita e talvez menos ocupados em debates conferencias e etc... (dos quais apoio veemente)
Pudera que Ru2x goste deste texto do caloiro... é-lhe familiar a escrita com certeza.
Devo dizer que também gosto do texto embora ainda não tenha casado com a química... Continuo natural da mesma forma que natural fui quando não dei uso ao látex
As vezes passo por aqui… para ver como vão as modas em épocas de saldos (ou não)
E para terminar queria dizer ao caloiro que também não gostava da palavra Sidoso quando a li pela primeira vez em textos antigos.
Também me chocou bastante e talvez seja esse sentimento que te provoque por enquanto.
Mas com o tempo acho que vais gostar do termo, assim aconteceu comigo… Uma bela armadura para a discriminação… Já lá vão os tempos das guerras medievais, já não se usa o aço e hoje as palavras valem mais que muita coisa.

Um abraço

Odele Souza disse...

Ru2x,
Este texto está competente e comovente. Bravos!! Mas a exemplo do autor do comentário acima, tenho dúvidas se quem o escreveu foi o "Caloiro" ou se foi você. Não importa. Importa mais ressaltar o quão agradável é perceber humor onde poderia haver apenas dor. De novo, os meus aplausos.

Obrigada pela referência à Flavia, que daqui, do outro lado do oceano mesmo imóvel em sua cama, e em coma, te acena freneticamente com mãos e braços, para te dizer que admira você. Pelo tanto que você resiste e pelo que insiste em continuar a nos ensinar, com amor e como se isto fosse pouco, também com humor.
Um beijo nosso.

Ru2x disse...

Odele,o texto não é meu, mas gosto muito dele.Por razões óbvias eu respeito o anonimato do autor por trás de um nick,mas sei o seu nome,o número de telefone e conheço-o pessoalmente.Para minha felicidade ele mudou para uma urbanização nova e veio viver para bem perto de mim.Estou-o modelando para ele encarar o touro(HIV)pela frente agarrando-o pelos cornos e vencendo-o.Os progressos são muitos mas ainda há que limpar fantasmas que o HIV nos coloca na cabeça.Gostaria que ele fizesse da SIDA a causa de sua vida e pudesse um dia quando eu partir dar continuidade ao projecto que eu comecei.Só o tempo o irá revelar e é comum as pessoas quando aprendem a voar sózinhas, fecharem-se na sua concha do anonimato por acharem que é a maneira mais fácil de não serem descriminadas e estigmatizadas por aqueles com quem convivem. Eu acredito nele e no seu desenvolvimento na procura do crescimento espiritual como ser humano. Se acontecer enganar-me como já aconteceu tantas vezes com outras pessoas poderei ficar triste mas nunca desiludido.Cada um é livre de seguir o seu caminho como bem entender.Beijos

Vegana disse...

Caloiro:
Excelente metáfora.Eu é que sou avessa a matrimónios e, sobtretudo, a padrinhos dos ditos.
Também não sou adepta de rótulos sociais, mas percebo e apoio o uso e abuso intencional de uma palavra preconceituosa de forma a banalizá-la até se esgotar o seu conteúdo perjurativo.
O meu casamento é,para já, uma relação a três mas, pelo sucesso que tem tido, estou cada vez mais convencida que o triângulo será desfeito com a expulsão do elemento indesejado. O Ruru pode explicar-to.Não o vou expor porque não sou a sua protagonista principal e por ter receio que publicitar o que, até agora, tem sido uma vitória- e que tenho a certeza que continuará a ser - mas sem qualquer base científica para tal, coloque em risco casamentos alheios.
Ah, e por total imodéstia e imenso orgulho, torno oficial e público que foi o meu Ruru que deu origem ao RU2X. :)

Ru2x disse...

Para esclarecer os leitores e descodificando RU2X,(RU duas vezes)é igual a RURU, nome carinhoso pelo qual Vegana me trata.Vegana é um dos meus amores, e uma tatuagem permanente nesta carcaça deformada pelos anos e pelo efeito das drogas retrovirais,que constitui o meu corpo, o qual carrega uma mente que penso ainda estar imune ao efeito dos quimicos que diáriamente tomo.

aDesenhar disse...

Ru2x
(sidoso bacharel)

tens no meu canto o esquisso prometido.
O símbolo do tabaco.

abraço

Fatyly disse...

Ru
Como te disse li o blog de ponta a ponta onde se inclua os textos versus testemunhos de Caloiro. Sinceramente senti que a revolta (mais que justa) como a estabilizar e por este...cada vez mais fico contente comigo própria por ajudar quem padece, porque realmente o dar as mãos, sabermos ouvir, abraçar e dizer: anda que hoje sou eu que carrego a tua mochila, quer aqui, quer no real...é sempre o melhor do melhor das sociedades feitas do faz de conta para não dizer HIPÓCRITAS.

Parabéns Caloiro (gosto tanto deste nick) e SIDOSO já não se aplica tanto por se terem apercebido que afinal tudo pode acontecer a qualquer um de nós.

Força Caloiro, Ru, Manuela e Odele e todos os comentadores que lutam para aliviar o sofrimento alheio e tão diversificado. Hoje sou eu que vos digo, mas amanhã nunca se sabe se terão de vocês de me dizerem o mesmo.

Beijos sinceros

Mário Relvas disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Biby disse...

Olá Ru2x!
Tambem eu partilho a opinião dos outros comentadores!
Encontrei este blog http://vihver-vih.blogspot.com/ pareceu-me interessante. Não sei se já o conhece!
Beijinhos doces
Biby

Lusófona disse...

Olá a todos!

Cheguei aqui através da Odele.
Eu nunca tive contacto com ninguém soropositivo, não que eu saiba, portanto, essa é uma experência nova para mim, quero saber mais sobre o dia a dia das pessoas infectadas, se assim posso dizer (?).

Vou passar por aqui de vez em quando para ler e aprender a lidar com essa realidade.

Beijos e fiquem bem

Mocho-Real disse...

Se existe humor triste, ele está neste texto!
É um acto admirável de coragem, de aceitação da vida, de amor à vida e ao próximo.

Os meus parabéns.

Uma sugestão: não dêem o nome de "sidoso bacharel". Não aceitem assim a estupidez alheia!

Um abraço.
Jorge G.

estrelinha disse...

Mts parabens pelo teu blog e pelo tua força tb sou seropositiva descobri a apenas 3 messes ainda estou a habituar me a este bicho