A Malta do Palacete


Nisto dos blogues e de lermos os dramas de cada um e as injustiças, criamos amizades sem rosto, que não conhecemos pessoalmente, mas às quais nos ligamos intensamente. Hoje estou virado para os meus amigos nas prisões, ou mais especificamente para a malta do Palacete (EPL) um estabelecimento prisional, lá mesmo em cima do parque Eduardo VII. Gente Fina que vive numa área nobre da Cidade de Lisboa.
Não sei se é um estabelecimento prisional modelo, (se é que podemos chamar isso a qualquer prisão) mas sei que está no programa experimental de trocas de seringas com mais duas prisões e parece que tem alguma inovação na maneira como lida com os seus “inmates”(Os bacanos que estão na choça).
Um programa que apoio e tiro o meu chapéu a quem o permitiu é o programa de Reabilitação através da escrita, através do qual foi possível criar um blogue chamado Memórias do Cárcere.
Foi desenvolvido e tinha o rosto do Zé Amaral, um puto que no dia em que fez 30 anos e devido à reforma do “Cabrão do Código Penal”, (como ele lhe chamava) saiu em liberdade, não sei se com anel de nobreza e seu selo real (agora chamam-lhe pulseira electrónica) ou se o mandaram incondicionalmente desenrascar-se na sociedade que o condenou.
Claro que o blogue continua pois parece que ele preparou o futuro do projecto e está muito ligado aos amigos que por lá criou e que aguardam a ordem de soltura.
Apareceu o Bruno (Membro do núcleo duro) que, parece um fiel discípulo do Zé. O pouco que li escrito por ele tem o traço da escrita do professor, mas ainda está na fase de passagem do testemunho.
A liberdade de expressão que alguém tem, quando lhe foram retiradas as liberdades garantidas pela constituição a qualquer cidadão livre, não sei até que ponto está reprimida e nem sei mesmo, quando de um momento para o outro esse privilégio lhes pode ser retirado.
Gostava de saber como está a decorrer o programa de trocas de seringas nas prisões, para aquela malta que usa drogas injectáveis. Eu e muitos outros companheiros cá fora, somos a favor dessa troca de seringas, assim como da distribuição de preservativos e tudo o que tenha a ver com prevenção de HIV e de HCV (Hepatite C), bem como de outras doenças.
Também sou a favor de programas de substituição como a metadona entre outros e mesmo considerando no futuro os recentes programas experimentais com uso de heroína e cocaína, como tratamento. A saúde dos cidadãos privados da liberdade deveria ser suportada pelo SNS e após retorno à liberdade ter continuidade, num qualquer hospital para onde fossem residir.
É prática comum, os cidadãos livres de novo, infectados pelo HIV, virem com retro virais para um mês sem terem um médico que os siga e um hospital onde estejam em tratamento entre outras coisas, como documentos de identificação, cartão de contribuinte etc...
É complicado para quem cá está fora aperceber-se de todos os problemas da comunidade prisional. É mais complicado ainda denunciar o que está errado com o sistema prisional estando lá dentro. Um mundo fechado ao exterior, com códigos de conduta e vida diferentes dos do comum cidadão chamado livre, em que o factor sobrevivência é uma escola e cujas aulas tem de ser assimiladas rapidamente e a aprendizagem levada à prática no dia-a-dia.
Alguns saem cá para fora e continuam a sua luta, depois de terem perdido o medo de possíveis represálias e tornam-se excelentes activistas pelos direitos dos seus antigos colegas. Só com a ajuda possível deles, poderemos lutar para que certos direitos básicos sejam cumpridos.
Ninguém pode modificar o passado, mas qualquer um está a tempo de iniciar um novo futuro.
Formar elementos úteis à sociedade, e ajudá-los a integrarem-se na sociedade é uma obrigação do estado para qualquer cidadão. As prisões são a ferramenta disponível para que isso aconteça e não podem ficar de fora nesse papel.
Força Bruno enquanto aí estiveres dentro. Muita força Zé, nas muitas dificuldades que vais encontrar cá fora.
Para mim vocês já são vencedores. Um abraço amigo, deste prisioneiro condenado a prisão perpétua por um cabrão de um vírus chamado HIV, que se não mexermos os cordelinhos com umas drogas chamadas de retro virais nos põe no corredor da morte, à espera do dia da execução.

6 comentários:

Biby disse...

Olá!
Passei para deixar votos de feliz 2008!
Perdoe-me a piada que a seguir descrevo e espero que não leve a mal... sabemos que o riso faz bem á imunidade:
O que desejar a uma pessoa com VIH no novo ano:
-Que os CD4 continuem altos e funcionais de preferencia acima dos 200
-Que a carga viral se mantenha indetectavel abaixo das 50 copias
-Que não apareçam doenças opurtunistas
-Que os efeitos da HAART desapareçam/diminuam
-Que apareçam novos medicamentos mais potentes e com menos efeitos secundários
-Que se descubra uma vacina ou a cura
-Que a sociedade evolua e as pessoas passem a ser mais tolerantes com quem sofre desta e de outras doença

Que o mundo seja um lugar melhor para se viver...
Desejo-lhe tudo de bom neste novo ano que começa!MUITA FORÇA para 2008!
Beijinhos
BIBY

Ru2x disse...

Olá Biby isto não é piada. Obrigado pelos votos em 2008, muitos deles são cumpridos outros nem por isso.Vacina é esquecer e cura também.Lembre-se a condenação ao HIV é Vitalicia e os cientistas não conseguirão tão rápidamente Revogar o código do tratamento retroviral.
Um comprimido dia é bom para quem pode, mas é para a vida.
São Tatuagens indeléveis para a vida semelhantes aquelas que fazemos de livre vontade.
Um bom ano para ti, e bom trabalho nesta area pois o campo é vasto e precisa de obreiros que acreditem genuinamente na causa.

Odele Souza disse...

Ru2x,
Estou aqui para ler seu post e lhe dizer que estou atualizando os links de Flavia.Linkei seu blog porque entendo que você presta um trabalho interessante de informação para infectados e parentes de pessoas portadoras do HIV. Foi inteligente a escolha do título de seu blog e espero que o nome Sidadania nos Favoritos de Flavia, lhe traga algumas visitas.Afinal, quando escrevemos, tanto podemos falar de amor como exorcizar a dor. Em ambos os casos ter quem nos leia é fundamental. (Esta frase é parte da introdução de meu outro blog, - Oficina de Palavras que eu o convido a visitar)

Um bom 2008 pra você.

Te deixo um abraço.

Ru2x disse...

Olá Odele e obrigado pela sua amabilidade.Gostaria e a ideia não é de hoje que escrevesse um texto para eu publicar aqui no sidadania.
Um texto que relatasse a sua vida durante um dia e o seu contacto com Flávia nesse dia.Toda a correria (que não deve ser pouca)para cuidar de sua menina, de seu filho e do seu trabalho.Acho que seria interessante pois é impensável alguém ter capacidade para o imaginar. Eu terei orgulho em o ter publicado,pois essa luta poderá servir de atenuante na revolta que para muitos existe em todas as tarefas a que a SIDA obriga e que nos fazem sentir como seres infelizes.
Por pior que seja a nossa dor há sempre alguém com dores mais profundas que a nossa. Beijo grande e uma estrada sem muitos buracos em 2008,para uma viagem tranquila durante o ano.

Zé "Prisas" Amaral disse...

Oi! RU2X
Estivemos a ler atentamente toda a tua análise e não podíamos deixar de concordar com tudo o que escreveste.

Sabes que estamos limitados a determinados tipo de opinião devido a regras que são estabelecidas internamente.

De qualquer forma, a leitura de dados e outras informações que tu aqui possas divulgar não nos são restringidas. Imprimimos e levamos ao Conselho para posterior divulgação entre a nossa comunidade se a relevância for aceite.

Agradecemos a tua gentileza de nos apoiar. Pessoalmente, também eu gostaria de ver resultados imediatos que o nosso Núleo Duro tenta obter no combate que ajudamos a realizar, juntamente com o corpo clínico do Palacete, para minimizar os estragos em toda aquela malta "agarrada" e que os números oficiais andam longe da realidade.

Quem sabe um dia poderemos falar mais abertamente...

Bruno Miguel Martins

Agora vou subir ao post de cima.

redonda disse...

Obrigada por me ter visitado e assim me possibilitar descobrir o seu blog. Estou a gostar de o ler, pela forma como escreve e pelo que escreve. Agora vou ficar por aqui, mas tenciono voltar e "linká-lo".