Um dia de cada vez...


Perante a incerteza do amanhã, a certeza da vivência do presente define-se como uma realidade constante. Todos os dias são para viver, fomentando um amanhã menos incerto e de certo modo mais atingível a curto prazo.

A infecção pelo VIH, recai sobre os portadores, como uma condenação perpétua, com tratamento, mas até ao momento sem resolução, até que seja finalmente descoberta uma forma eficaz de erradicar o virus do organismo humano definitivamente. Quando tomamos conhecimento de que somos portadores da infecção, uma das maiores frustrações que sentimos é termos a consciência de que estamos perante um beco sem saída, uma patologia sem cura, que perdurará à partida, por todos os dias da nossa vida futura.

A partir desta certeza, vive-se em desatino e em desalinho definitivo. Pensa-se num futuro desejando que o presente perdure, sobrepondo-se ao mesmo. Afinal, o futuro não se avizinha risonho, deitando por terra objectivos reais e concretos, que contudo, sempre tivemos. Vive-se na corda bamba, cambaleando para ambos os lados, desajeitadamente.

Com o decorrer da vida como infectados, vamos começando a perceber que toda a postura inicialmente criada na nossa mente, aquando da recepção da notícia e primeiros tempos passados sobre a ocorrência, é de facto incorrecta e falsamente fundamentada. É um facto que é necessário planear o futuro a médio e longo prazo, tendo em conta a realidade da nossa situação clínica, mas na realidade todas as pessoas o planeiam. Há que arrumar a casa e reunir condições sócio-económicas para o nosso sustento. De resto, há que viver a vida, como qualquer outra pessoa, tendo objectivos e ambições, exercendo a nossa profissão quotidianamente, cumprir a terapêutica a que estamos sujeitos e desfrutar dos momentos de lazer a que todos temos direito, usufruindo dos períodos de férias, nos quais poderemos viajar, libertando o espirito e obtendo uma lufada de ar fresco para a nossa vida. Afinal, como sempre se disse, é o que se leva da vida...

Viver um dia de cada vez é a melhor opção. Pensar no amanhã, mas com conta, peso e medida e nunca sofrer por antecipação. Sofrer porquê? Quem sabe se viremos a ter necessidade de sofrer? Se o amanhã é incerto, cumpre-nos viver o presente dia-a-dia, com a certeza de que quando o amanhã chegar, teremos o tempo suficiente para o encarar, aceitar e solucionar, como o fazemos com o presente, a cada dia que passa.

Também a esperança redime e nos acrescenta...

21 comentários:

Coragem disse...

Paulo, exactamente da forma que eu penso...
Futuro?? A ninguém pertence, saberemos por acaso como é o nosso dia de amanhã? Eu não sei!
Há 5 anos foi me diagnosticada uma doença neuro muscular, pouco conhecida, sem grande medicação, aliás a que existe poderia aliviar, nunca tratar.
1ª recomendação médica, foi aprender a viver com o que me pertence, preparar-me pois dali a 10 anos (já passaram 5)conforme a evolução poderia andar numa cadeira de rodas...

Sinceramente esqueço o que me foi diagnosticado, quero viver, não quero sofrer por antecipação, quero acreditar enquanto tiver qualidade de vida que posso sonhar, planear e ser FELIZ.

E nem acredito que, um dia talvez...

Viver intensamente...Hoje, Paulo

Amanhã, amanhã só Deus sabe o que virá.

Para ti hoje, o meu melhor sorriso
:)

Beijo sincero

Paulo disse...

Coragem
Isso mesmo, viver um dia de cada vez. Faço votos para que esse problema de saúde nunca avance para a situação que referes. Já lá vão 5 anos, outros 5 virão e se Deus quiser, continuarás sempre bem. O texto que acabo de publicar é a filosofia de vida que adopto a cada dia que passa e se filosofar é estar a caminho, pretendo caminhar sempre, com força, com coragem (um pouco da tua também) e com toda a determinação.
Retribuo o sorriso, em tom de gargalhada estridente por te ter como amiga. Essa é sem dúvida uma das minhas maiores conquistas, para a qual a reciprocidade será sempre uma constante.
Gosto muiiiiitooooo de ti. :))
Beijo sincero

Silvia Madureira disse...

Olá:

Muito bonito o comentário do abraço. Senti-me realmente aconchegada...

Quase chorei...

De facto uma doença que eu julgava transformar as pessoas em malvadas e egoistas...é puramente o contrário.

As pessoas com este tipo de patologia passam a pensar mais no outro.

Sofrer? Não sofram...a vossa coragem faz falta a muitas pessoas.

beijo

Silvia Madureira disse...

Fico a pensar no teu ultimo comentário e só me apraz dizer que todos vocês são muito humanos, deixam de olhar às mediocridades da vida...

beijo

Paulo disse...

Silvia
Quando a vida nos dá um abanão, abanão esse que pôe em causa a nossa própria existência, mostrando-nos o quanto efémera a vida é, apercebemo-nos daquilo que somos feitos efectivamente: de pele e osso e repletos de humanidade. No dia a dia, muitas das vezes não nos apercebemos disso e vivemos velozmente lutando pela sobrevivência, esquecendo-nos de quantos abraços são precisos no mundo inteiro a cada minuto que passa. Agradeço à SIDA o ter-me aberto os olhos para a humanidade e gostaria muito que todas as pessoas que dela padecem, aos milhões pelo mundo fora, pudessem ter acesso aos medicamentos, o que não acontece aterradoramente.
Silvia, receba o meu abraço sincero, repleto de emoção e sinceridade. Agradeço também o seu abraço, que preciso tanto dele, como de pão para a boca.
Beijinho

f@ disse...

Paulo,... lol... podes mascar à vontade que as pastilhas usadas são as que se usam ( reciclagem) reaproveitamento de pastilhas e saliva e tudo...lol... estou a brincar...mas é a menos que eu tenha traduzido mal...
beijinhos das nuvens

Odele Souza disse...

Paulo,moço bonito.

Teus textos refletem o bonito ser humano que és. Não és uma pessoa soro positivo. És uma pessoa POSITIVA, e o contato contigo é um privilégio.

Um abraço demorado.

sideny disse...

paulo
ha que viver um dia de cada vez.
ja chegou quando se recebe umas analises a confirmar que se tem o virus.
bom mesmo era que todas as pessoas infectadas tivessem acesso, aos medicamentos.
esperemos que num futuro proximo
isso possa vir a se real.
o futuro logo se ve ,quanto ao presente e vive-lo dia a dia.
abraco

RAUL disse...

Paulo
Perguntaste-me por email, se gostava dos textos que tens escrito. Nem sei se te respondi,
tal tem sido a confusão na minha vida sem tempo para nada.Sinceramente gosto do que escreves e da maneira como o fazes.
Uma coisa é revelada nos teus textos, renasceste para a vida e abraçaste a causa do HIV, o que para mim é extremamente agradável.
O Caloiro progrediu e cresceu, e actualmente está com forças para prosseguir a caminhada e ajudar outros a fazê-lo.
Eu continuo vagueando pelo mundo, ora aqui, ora ali mas mais ou menos sempre por perto.
O Sidadania II está dando os seus passos também e é a segunda página deste blogue.Actualmente está com Flávia e irá estar com outras causas e outras dores, que no fundo embora diferentes são iguais às nossas. Adorei alguns comentários aqui deixados por amigos e espero muito em breve ter tempo para dar
as minhas rondas pelo cantinho de cada um deles.
Um Abraço e não pares.

Paulo disse...

F@
Blhác... :)
Mascar pastilhas, acalma-me os nervos... Iol... assim como me acalmam as esculturas, construidas com elas. :)
Fazes-me ir às nuvens... sempre...
Beijinho

Paulo disse...

Odele,
Super mãe querida! Obrigado pelo elogio, tento ser o mais positivo possível, a cada dia que passa. É para mim também um privilégio tê-la como amiga.
Um beijinho para Si e outro... do tamanho do mundo para Flávia.

Paulo disse...

Sideny
Viver um dia de cada vez é de facto a solução, para prosseguir o nosso caminho.
Viver com o VIH em Portugal é viver com o privilégio de ter assistência médica gratuita e garantida. Imagine se tivessemos nascido e vivessemos em Africa, por exemplo? Seria um acto de uma humanidade incalculável, que os paises desenvolvidos fizessem chegar os medicamentos a quem deles precisa tanto como nós.
Um abraço

Paulo disse...

Raul
Grande maroto! Pensei que tivesses viajado.. :) Então agora a tua foto são dois macaquinhos? :) Um deles poderei ser eu, mas dos dois, não sei qual é o mais parecido comigo.
De facto, tenho progredido desde o dia em que soube estar infectado, já lá vai um ano e tal... Aos poucos tenho reunido as forças necessárias para ir superando.
Sinto-me apoiado e disposto a apoiar.
Parabéns pelo teu empenho pessoal no Sidadania II que tem já posts de grande valor. Ultimamente tem sido tu no II e eu no I, pois sou mais conservador. :)
De qualquer das formas, trabalhamos em conjunto, com o mesmo objectivo de sempre.
Sim patrão, prometo não parar, pois parar é morrer. :)
Um abraço e ... muitas macaquices!

Silvia Madureira disse...

Paulo:

Parabéns! Tens uma força incrível! Sem pretender acabei por ler que descobriste estar infectado há um ano e tal...em pouco tempo conseguiste superar tudo ...muitos parabéns!

Já agora...um ABRAÇÃO...se precisas não seja por isso...

Beijinhos e espero continuar a ler-te

f@ disse...

Abraços e bom fim semana beijinhos das nuvens

Paulo disse...

Silvia
Obrigado pela visita. É um facto que sei estar infectado desde Janeiro de 2007. É um facto também que provavelmente já serei portador do virus há muitos anos, pelo estado em que se encontrava o meu sistema imunitário quando soube que estava infectado. É um facto também que nunca infectei ninguém pois sabia dessa possibilidade, tendo tomado sempre todas as precauções devidas. Fui infectado, mas nunca infectei e sigo em frente com a consciência tranquila.
É também um facto que tenho superado, não tudo, confesso, mas aos poucos vou lá.
Obrigado pelo abração que retribuo com o maior gosto.
Espero sempre encontrá-la por aqui.
Bom fim de semana.

Paulo disse...

F@
Obrigado pela visita. És muito querida. :) Um bom fim de semana para ti também e ... já lá passo pelo teu cantinho para subir às nuvens e voar...
Um beijinho especial.

Fatyly disse...

Paulo e a todos

Quando li o teu texto e os comentários dou-me por muito feliz ver que neste mundo cão há de facto solidariedade e um acreditar numa roda onde todos damos as mãos sem preconceitos.

"Viver um dia de cada vez" aprendi debaixo de fogo de armas bélicas.
Aprendi nas filas infindáveis de pão e algo que vendessem para comer.
Aprendi que nessa busca diária caiam ao meu lado seres como eu e porque não eu?
Aprendi e acredito que quando nascemos vimos com um destino ao qual ninguém foge.
Aprendi que a fome, a doença, a dor, as mãos cheias de "nada" não tem cor, raça ou religião.
Aprendi e hoje ao olhar para imagens das guerras espalhadas pelo planeta, que me são tão familiares, que aqueles que pensam vencer pela força também eles tombarão e com eles todo o mal que fizeram sobre o seu semelhante.
Aprendi a verdadeira palavra da solidariedade e voluntariado.
Aprendi ou melhor pulverizaram-me tudo que tinha, secaram-me as lágrimas, opacaram o meu olhar, mas não me tiraram os valores morais e sentimentais e flori de novo, tal como uma flor que é espesinhada mas com a chuva e sol volta sempre a renascer porque a natureza assim o entende.
Hoje não faço planos para o amanhã.
Hoje acordei mas quem me garante que daqui a meia hora estarei bem? quem me garante que amanhã acordarei?
Mas hoje e só hoje vou vivendo ao segundo e neste momento estou a fazer um belo tabuleiro de arroz de pato e ir ter com as minhas filhas, genros e netas e fazer-lhes a surpresa. Chegarei lá? não sei só sei que "agora" o pato já cheira bué bem!

A tua frase: "Há que arrumar a casa e reunir condições sócio-económicas para o nosso sustento"...
sim essa arrumação deverá passar sempre pelo "fiz o que pude, acredito que vou superar, tenho que acreditar e sorrio, sorrio, sorrio perante o espelho da vida e aceito!
Quanto às condições sócio-económicas, vivo só da minha pequena reforma e sem pedir nada às filhas, ou seja sustento-me...mas chega ao fim do mês, tenho tudo pago, bem alimentada e tratada e juntar? pé de meia? não consigo e deixar aos filhos cortando à barriga e na saúde é o maior disparate que se pode fazer ou até empenhar-se para ir às Pipis e Maldivas ou ter uma casa e carro XPTO. Sou feliz com o que tenho. Que se amanhem e se um dia eu precisar quero ir para um lar até onde a minha reforme chegue e se morrer não quero flores, velas, missas, choros e ser cremada que só isto custa actualmente 25/30€.
Dêem-me flores em vida e neste momento colho a mais bela e viçosa do meu coração e ofereço-te(vos) dizendo que "os maiores lamechas são os que vivem de barriga cheia, nariz impinado e que pensam sempre que só aconte aos outros".

Força a todos e que todos nos unamos em volta da selecção (não a da bola) portuguesa por um Portugal maior, melhor e mais justo.

Uma beijoca

Paulo disse...

Fatyly
O comentário que nos deixou e que acabei de ler e reler e reler, deixou-me estupefacto e de boca aberta. Foi provavelmente dos melhores textos que li em toda a minha vida. O seu comentário daria um post valiosissimo pela experiência de vida que relata e por ter sido escrito por alguém que a meu ver tem uma visão exacta e empírica do percurso da vida. Não tenho nem existem palavras para descrever o que senti. O tempo passou por si, somente no calendário da vida. Sabe uma coisa, quando for grande quero ser como a Fatyly. Obrigado por tudo, obrigado pela sua existência.
Um beijinho deveras especial.

Fatyly disse...

Paulo
Kê nada rapaz e por favor trata-me por "tu" porque o "você" é só no Brasil mas com o mesmo significado do nosso tu.
Muitos podem não acreditar porque de facto aqui na net existem tantas mentiras, mas sou mesmo assim e depois de ter escrito o que escrevi, um amigo de infância que tem 60 anos (o meu carvão como lhe chamo) lê tudo o que escrevo(escrevem) mas nunca comenta porque não gosta (o que respeito) telefonou-me e disse-me algo muito engraçado: tu és o espelho que nunca se embacia e quando for grande quero ser como tu. Outras vezes diz "quero ser adoptado por ti".
Fui eu que o levei para "dador de sangue" e não é que o gajo desmaiou? Balha-me deus...passamos o que passamos em terras angolanas e por um niquito que nada custa deixa-me ficar mal?
Ohhhhhhh pá...não me batas (isto é para ele).

Há tantos iguais a mim e tu Paulo também és, acredita que és porque todos somos formados com duas componentes: a boa e a má e também por vezes sobe-me a mostarda ao nariz e aí fujammmmm, também por vezes tenho momentos de astral em baixo...mas jamais deixar-me ir abaixo porque perco segundos da vida por coisas que não merecem a pena nesta luta de tantas desigualdades.

Já agora, se puderes vai à minha cubata e vamos lutar por mais uma causa?

Bora daí e força que já tive tempo de comer o pato, brincar com as netas e vir aqui dar-te um abraço sincero e verdadeiro.

Paulo disse...

Fatyly
Obrigado por poder tratar-te por tu...
Vou até à tua cubata, já de seguida...
Um beijinho também sincero e verdadeiro, tal como o teu abraço.